Início Especiais Aos 53 anos, santa-cruzense realiza um sonho de adolescência

Aos 53 anos, santa-cruzense realiza um sonho de adolescência

Jéssica Ferreira
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Fazer as malas, partir para um país cuja cultura é desconhecida, onde se fala uma língua estranha e assim, se hospedar na casa de uma família a qual jamais houvera visto antes, pode até parecer loucura. Entretanto, realizar um sonho antigo se tornou objetivo principal do santa-cruzense Clóvis Berger, de 53 anos, após se aposentar. Ele nos recebe em sua casa logo cedo, pela manhã, e animado já nos conta suas aventuras enquanto sua esposa Angela Porn Berger, de 50 anos, prepara um bolo para a família. 
Sentando em sua cadeira, seu Clóvis relembra sua juventude quando seu maior desejo era fazer intercâmbios como seus colegas de escola. “Quando jovem, sempre quis viajar para outro país, não apenas para turismo, mas pela curiosidade em conhecer e ver a realidade do local de destino. Na época meus pais não tinham condições, os tempos eram outros e as situações eram mais difíceis. Eu comecei a trabalhar com nove anos vendendo frutas nas ruas de Santa Cruz do Sul. Depois de casado, passei a trabalhar por anos em comércio até me aposentar”, explicou.
Porém, tirar o passaporte, arrumar as malas e embarcar rumo a outro país são objetivos que caberiam perfeitamente na vida de um jovem estudante de 18 a 25 anos. Mas para seu Clóvis, a idade ou muito menos sua aposentadoria se tornaram barreiras para que ele viesse voltar a ter seus sonhos de juventude, ou ainda melhor, ir em busca da realização desses mesmos sonhos.  “Não vejo a aposentadoria como um fim de vida, muito pelo contrário, recebemos mais independência e tempo. Fazer algo que sempre quis e aproveitar, certamente é uma virtude que podemos compartilhar. Ao ouvir falar sobre intercâmbio na terceira idade, passei a vasculhar informações pelos sites, até encontrar um local que realmente era o que eu sempre quis quando jovem, ou seja, onde pudesse analisar suas diferenças e viver naquela realidade. Tive todo o apoio da minha família e foi onde decidi que ali seria um começo de grandes aventuras”, afirmou. 
Dona Angela ouvia seu marido contar a história lá da cozinha, até que se aproximou e perguntou se ele havia falado sobre o ambiente e os bichinhos que via nas paisagens do local. Porém, seu Clóvis afirmou que ainda chegaria nesta parte, pois havia muito que contar. Ao terminar seu bolo, ela novamente se aproxima e passa a ouvir as histórias de seu Clóvis – estas que ouve desde que seu companheiro voltou de viagem. Ela nos diz que no começo se espantou com a ideia, mas que ao ver o local onde seu marido passaria, ficou mais aliviada. “Achei tão surreal”, indagou ao lembrar os primeiros preparativos para a viagem de seu Clóvis. “Não entendia como uma pessoa entrega sua casa para outra cuidar. Além disso, imaginava que ele ficaria em um lugar fechado, escuro, como um porão. Mas, quando vi as fotos, passei a ter uma visão diferente e, quando ele esteve lá, realmente vi que não era nada do que pensei.”
Ela nos diz que percebeu muitos preconceitos enquanto seu marido viajava, pois muitos ao seu redor achavam a ideia de realizar um intercâmbio com a idade de seu Clóvis algo arriscado ou até mesmo ruim. “Ouvi de muitos que eu era maluca em deixar ele ir, ou então, que ele poderia não voltar, e até mesmo comentários machistas. Mas no momento em que soube não era enrascada, apoiei meu marido em algo que sabia o quando ele queria”, afirmou. Hoje dona Angela nos conta que tem planos como estes para os próximos anos. “Agora que sei como é, quero ir com ele e com minha filha. Conhecer a Europa e tantos outros lugares. Meus objetivos são em conhecer o novo e valorizar o que tenho, pois gosto muito daqui e ao redor, tão perto da gente tem coisas incríveis para conhecer”, concluiu.

Cultura e local

Seu Clóvis prosseguiu contando como foi chegar num local tão diferente e o quanto de diferenças encontrou por lá, que chegaram a marcar sua vida. Ele enfrentou cerca de 24 horas de viagem. Embarcou no dia 5 de junho, e voltou no dia 5 de julho. “Estive numa cidadezinha, meio que interior”, disse ao tentar imaginar algo semelhante. “Como se fosse uma cidade aqui da região, pequena e de poucos habitantes. Conhecida como Frederick no estado Washington nos Estados Unidos. Lá fiquei 25 dias na casa de uma família que estava de viagem marcada para a Islândia. Fui muito bem recebido, até uma caminhonete deixaram para mim poder usar enquanto cuidava da casa. Exerci funções simples, que eram basicamente cuidar de um gato, um peixe e um coelho muito levado”, disse, rindo ao lembrar que chegou a ser mordido pelo coelho.
O pensamento de seu Clóvis referente às diferenças que encontraria lá era um, porém, ao chegar lá percebeu que era completamente o contrário que ele esperava. “Sabia que me surpreenderia, mas foi além das minhas expectativas. Existe um diferencial muito grande em relação à educação e à segurança, a exemplo de que fui abastecer a caminhonete, e ao chegar lá não havia frentistas, pelo contrário, havia apenas as bombas e lá dentro do estabelecimento o dono, sem sequer sair para fora ao me ver”, indagou.
“Outra coisa curiosa foi encontrar um local onde se vende produtos coloniais como ovos – sem vendedor. Isto é, quem vai até o local, escolhe o que quer e deixa o dinheiro equivalente da compra numa caixa. Se tiver que pegar troco, a própria pessoa quem faz. Ao contrário do Brasil, imagina se fosse assim?”, contou, ao questionar a forma tranquila com a qual os comércios funcionam nos Estados Unidos. “Além disso, o trânsito é incrível, se a pessoa atravessar uma faixa de pedestres, os carros param no mínimo dois ou três metros antes da faixa branca”, acrescentou.
Mesmo em meio a um local onde a tecnologia está mais avançada, a qualidade de vida é completamente diferente do Brasil. Além da estrutura financeira, educação e tantas outras coisas praticamente evoluídas, seu Clóvis nos conta que sentiu falta de algo que só encontra mesmo no Brasil, ou seja, um bom humor, pessoas alegres, música, enfim. “Lá andava de trem e ninguém te olhava, não recebia um ‘bom dia’ ou uma ‘boa tarde’ de ninguém. Pareciam pessoas frias, sem sequer sorrisos eram vistos em seus rostos”, argumentou.
Por fim, andar com um mapa na mão, um dicionário na outra e o mundo pela frente, conhecer novos países nunca esteve tão em alta para os mais experientes. E um dos benefícios está justamente na maturidade dos aventureiros. A principal diferença entre a viagem de turismo e o intercâmbio cultural está no conhecimento agregado. No caso do intercâmbio, o viajante também tem bastante tempo para conhecer os pontos turísticos, tirar fotos e descobrir a fundo os novos destinos e sabores da região, características que são do turismo. O bônus é a oportunidade de poder ir além da fotografia e da memória.
Para seu Clóvis, este foi apenas um pontapé para novas aventuras, e as próximas serão ao lado de sua família. “Como a Angela disse, na próxima estamos planejando ir todos juntos. Além disso, temos muitas coisas para conhecer por aí, exercícios para praticar, entre outras atividades. Não vamos parar, está apenas começando. O que ontem como jovem não pude fazer, hoje certamente vou aproveitar”, concluiu.

Luana Ciecelski

Conheça um pouco das aventuras que um santa-cruzense viveu durante 25 dias

Intercâmbio para terceira idade

A procura pelo intercâmbio na terceira idade entrou em cena e tem sido a realidade dos novos tempos. Segundo estatísticas levantadas em sites intercambistas, nos últimos cinco anos o número de viagens tem aumentado em relação a pessoas de 50 a 70 anos. O que diferencia o intercâmbio convencional para estudantes e o intercâmbio para terceira idade é a intenção do público. Diferentemente dos estudantes que fazem intercâmbio para aperfeiçoar o currículo, o público da terceira idade, em sua maioria, já tem uma vida profissional resolvida e o intercâmbio é feito pelo puro prazer em aprender, seja uma língua nova ou uma culinária típica do país visitado.
O mundo se abriu para um público que anteriormente não via perspectivas além do espaço em que morava e dos locais (sempre os mesmos) que visitava ou aquelas, como o caso do seu Clóvis, que sempre sonharam em conhecer outras culturas, mas que porventura quando jovens não tiveram a oportunidade. O intercâmbio tem valor cultural maior que uma viagem tradicional e por este motivo o público da terceira idade está cada vez mais procurando este tipo de programa.
Para isto basta buscar informações de empresas intercambistas, economizar, planejar o roteiro, fazer sua escolha, arrumar uma boa companhia ou não, fazer suas malas e partir a uma aventura que de alguma forma marcará sua vida e fornecerá experiências incríveis, não importando sua idade ou condição.