Início Esportes Basquete masculino: 30 anos de uma vitória inesquecível

Basquete masculino: 30 anos de uma vitória inesquecível

Nelson Treglia
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Passaram-se 30 primaveras. O ano de 1987 já está bastante distante de todos nós. Tempos da Guerra Fria entre Estados Unidos e União Soviética, e da hiperinflação no Brasil. O Grêmio era tricampeão gaúcho com o técnico Luiz Felipe Scolari, e o Inter foi vice-campeão da Copa União contra o Flamengo de Zico e Renato Portaluppi. Mas uma grande vitória brasileira aconteceu em agosto daquele ano, quando, no basquete masculino, a Seleção treinada por Ary Vidal derrotou os Estados Unidos na final dos Jogos Pan-Americanos, por 120 a 115. E o mais interessante: o Brasil derrotou os EUA em solo norte-americano, na cidade de Indianápolis. Pela primeira vez, os Estados Unidos perdiam uma partida oficial em casa e sofriam mais de cem pontos.

 

A Seleção Brasileira histórica de 1987 - De pé, Israel, Marcel, Sílvio, Gerson, André e Rolando; agachados, Guerrinha, Cadum, Oscar, Maury e Paulinho Villas Boas. À direita (agachado), o técnico Ary Vidal

 

Segundo Marcelo Denizar Martin, jogador e entusiasta do basquete em Santa Cruz do Sul, a vitória da Seleção treinada por Ary Vidal em Indianápolis foi significativa não só para o basquete brasileiro, mas também para a modalidade em nível mundial. Especialmente com os jogadores Marcel e Oscar, o Brasil enfrentou os Estados Unidos na final de 1987 apostando nos arremessos de três pontos, e com um alto aproveitamento. “Mudou o conceito do jogo”, avalia Denizar. A Federação Internacional de Basquete (Fiba) havia instaurado o arremesso de três pontos poucos anos antes, em 1984. Algo que a associação profissional norte-americana, a NBA, havia criado em 1979.

Denizar lembra que essa regra surgiu para abrir a marcação das equipes, que até então se concentrava no “garrafão”. A Seleção dos Estados Unidos, até a década de 80, não utilizava os jogadores profissionais, que atuavam na NBA. Somente jogadores universitários faziam parte da Seleção norte-americana. Os Estados Unidos foram campeões mundiais em 1986, mas perderam para o Brasil no Pan de 1987 e, pela segunda vez, ficaram sem o ouro olímpico nos Jogos de Seul em 1988 (a primeira vez havia sido em Munique 1972). Para piorar a situação, os norte-americanos ficaram sem o título mundial em 1990.

Com esta sequência de derrotas, a grande potência do basquete mundial passou a utilizar jogadores da NBA, reconquistando o ouro olímpico em Barcelona 1992 e o título mundial em 1994. Em 1992, um time antológico foi montado, com Magic Johnson, Michael Jordan, Larry Bird e outros supercraques. Por aí se tem uma ideia da relevância em torno do ouro pan-americano do Brasil em 1987.

O PAN E O BASQUETE DE SANTA CRUZ

Santa Cruz do Sul possui uma longa trajetória no basquete, desde os tempos da rivalidade entre Corinthians e Sociedade Ginástica, que faziam o clássico Gi-Co. Como lembra Marcelo Denizar, eram tempos de amadorismo e muita paixão. Na década de 90, essa paixão tomou proporções ainda maiores com a criação de grandes times pelo Corinthians, hoje União Corinthians. O técnico da Seleção Brasileira no Pan de 1987, Ary Vidal, foi contratado pelo Tricolor de Santa Cruz, e jogadores daquela Seleção tiveram passagens pelo Corinthians, como foi o caso de Marcel, Pipoka e Rolando.

“A chegada de jogadores desse nível marcou a passagem do amadorismo para o profissionalismo. Santa Cruz já tinha tradição e já gostava de basquete, mas ali aconteceu uma mudança muito grande”, conta Marcelo Denizar Martin. Esse processo histórico no basquete santa-cruzense teve seu ápice em 1994, com o título brasileiro conquistado pelo Pitt/Corinthians. Marcelo Denizar recorda outros grandes times montados na década de 90. Em 1996, por exemplo, o Pony/Corinthians foi vice-campeão brasileiro em uma final contra o Corinthians Paulista, então time de Oscar, um símbolo do Pan em 1987.