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Carmen Lucia: "Conquistar nosso lugar"

Mãe, avó, filha, amiga e mulher, a reitora da Universidade de Santa Cruz do Sul, Carmen Lúcia de Lima Helfer é um dos grandes exemplos de liderança feminina da cidade. Em conversa com o Riovale Jornal ela falou um pouco das experiências e desafios de sua trajetória, opinou sobre a participação das mulheres em diversas áreas da sociedade e também sobre a relação de igualdade com os homens, bem como sobre as evoluções que foram percebidas por ela nos últimos anos. Confira:

Riovale Jornal: Como primeira mulher a ser reitora da Unisc, como a senhora vê a participação da mulher na universidade e na sociedade?
Carmen Lucia de Lima Helfer: As mulheres de minha geração já foram educadas para ser profissionais e para participar do mundo do trabalho e da sociedade. Vejo como muito importante e necessária a participação feminina em cargos de liderança, em espaços políticos, em espaços públicos. Historicamente, as mulheres tiveram uma participação intensa nos espaços privados. Desta participação privada muitas características e aprendizagens, como a administração da casa, o exercício do papel de mãe, de mulher, o olhar para um conjunto de atividades e sua realização simultânea, ajudaram as mulheres a construírem uma série de possibilidades e de habilidades importantes para o protagonismo social e profissional. Veio a escola, a participação política e hoje estamos ocupando lugares que eram destinados unicamente ao público masculino. Estes espaços são decorrentes de conquistas coletivas, do reconhecimento da capacidade feminina e do respeito aos nossos direitos.
Como primeira reitora da Unisc, percebo que somos minoria neste segmento. É um cargo ocupado majoritariamente por homens. No entanto, a cada ano, vemos aumentar o número de reitoras. Ser a primeira reitora marca minha trajetória pessoal e profissional e também a da universidade, o que abre espaço para outras mulheres. Conquistar este cargo, através de eleição  direta,  foi consequência e confiança num trabalho de muitos e muitos anos nesta instituição e, ao mesmo tempo, amplia em mim uma grande responsabilidade de liderar com competência e sensibilidade a Unisc e a Apesc.

Carmen Lucia de Lima Helfer, primeira e atual reitora da Unisc

R.J.: Quais os principais desafios que a senhora enfrentou ao longo da vida? A senhora já enfrentou preconceitos por ser mulher?
Carmen Lúcia: Já enfrentei muitos desafios na minha vida. Comecei a trabalhar com 18 anos e também tive filhos muito jovem. Sempre fiz várias coisas ao mesmo tempo: estudei muito, trabalhei muito, cuidei da casa, fui e sou mãe – agora avó -, mulher, amiga, filha e profissional. Esta multiplicidade de funções e papéis já é um enorme desafio e, principalmente, ser tudo isso e ainda buscar, cotidianamente, ser uma pessoa melhor, uma mulher com autonomia e feliz, com uma certa dose de ousadia e coragem para alcançar os objetivos que me proponho a alcançar. Preconceito por ser mulher não sei se senti. Senti exclusão por ter tomado decisões incomuns.
Os desafios mudam conforme nossas experiências e aprendizagens. Hoje meu grande desafio é estar à frente de uma universidade, dando continuidade à sua manutenção e à sua melhoria, buscando sempre reconhecer o valor do trabalho individual e coletivo das pessoas, a qualificação permanente do pensamento e da prática universitária,  que tem a missão de educar e formar homens e mulheres, livres e capazes, que contribuam, de fato, para uma sociedade melhor, com mais justiça e solidariedade, com mais desenvolvimento econômico e social, com mais oportunidades de trabalho e geração de renda.

“Ser a primeira reitora marca minha trajetória pessoal e profissional e também a da universidade, o que abre espaço para outras mulheres.”
Carmen Lúcia de Lima Helfer, reitora da Unisc

R.J.: Quais as características da mulher contemporânea na sua opinião?
Carmen Lúcia: Inteligência, vaidade, equilíbrio entre razão e emoção, estudo, flexibilidade, autonomia, ousadia, coragem, autoconfiança.

R.J.: O que a mulher ainda precisa para atingir uma relação de igualdade em relação aos homens? É possível chegar a essa igualdade?
Carmen Lúcia: Temos um caminho a percorrer nesta relação de igualdade. Ainda temos que buscar igualdade de oportunidades. Não creio nem acho que seremos iguais. Temos que buscar e valorizar o lugar feminino, mas não sendo igual aos homens. Temos que preservar sempre a mulher em cada uma de nós e conquistar nosso lugar na sociedade com determinação, inteligência e sensibilidade.

R.J.: A senhora entende que os homens já compreendem melhor a ascensão da mulher? O que melhorou nesse sentido nos últimos anos?
Carmen Lúcia: Entendo que os homens já compreendem e aceitam melhor a ascensão da mulher. Melhorou o reconhecimento da capacidade intelectual e profissional da mulher. Melhorou o respeito, a amizade, o trabalho em parceria, em algumas sociedades.
Temos uma caminhada longa na conquista e na ocupação de espaços pelas mulheres. Enquanto isso não acontece, temos que continuar na busca de melhores condições de trabalho e renda, e na busca da igualdade de oportunidades para todas as mulheres do planeta Terra.