Luana Ciecelski
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A viatura entra na comunidade, considerada como uma das mais violentas da cidade, e as pessoas que lá vivem acenam e dão a mão para os policiais. Numa das vielas tidas como um dos principais pontos de tráfico, moradores e brigadianos se cumprimentam pelos nomes. É assim que trabalham os patrulheiros comunitários do Território da Paz de Santa Cruz, mostrando que convívio pacifico e dedicação geram bons resultados.
Essa é uma iniciativa pioneira do 23º Batalhão de Policia Militar (BPM) e do seu comandante, tenente coronel Valmir José dos Reis. Foi trazida ao município como parte da atualização do plano de segurança da Brigada Militar, e tem como foco principal cinco bairros – Pedreira, Senai, Bom Jesus, Schultz e Santuário – abrangendo cerca de 30 mil pessoas em uma das área mais conflagradas da cidade. O projeto existe efetivamente desde 2012, mas iniciou em 2007 através da operação Convivência em Harmonia.
O principal resultado é que no lugar de uma comunidade que sofria com a violência e com os altos índices de homicídios – antes um ou dois por semana -, está um bairro em processo de pacificação onde as pessoas podem tomar chimarrão em frente às casas, deixar a chave da ignição dos veículos e onde há três meses ninguém é assassinado – antes disso chegaram a completar dez meses sem homicídios. Isso se deve principalmente ao trabalho de quatro patrulheiros comunitários: Oswino Ebert, Tiago Prado, Eduardo Rosa Rodrigues e Anderson Correia da Silva.
ROTINA
Na rotina diária, os soldados Ebert e Prado, que moram no bairro Bom Jesus, e trabalham lá há quatro anos, realizam visitas ao comércio, palestras instrutivas em escolas, orientam os cidadãos, trabalham na prevenção dos crimes com atividades como o Programa Educacional de Resistência às Drogas (Proerd) e o Pelotão Mirim. Todas as suas atividades têm como objetivo a integração. “O foco dos patrulheiros é o contato e a aproximação das relações da polícia com a comunidade, o que era muito distante antes”, afirma Ebert.
Outra responsabilidade do grupo de patrulheiros comunitários é entender os problemas do local, buscar os motivos que levaram um determinado crime a ser cometido e respaldar com seus conhecimentos, outros setores da polícia em seus trabalhos. Por isso morar no bairro é tão importante. Só assim conseguem conhecer verdadeiramente cada local, e cada ponto que ainda precisa de atenção. “Com o patrulhamento lá dentro, existe uma facilidade maior para que tanto a Brigada Militar quanto a Polícia Civil entrem na comunidade. Isso era impossível há alguns anos”, comentou Prado.
Além disso, muitas vezes a comunidade têm as informações, mas tem medo de fazer uma denúncia. Já com os patrulheiros esse receio não existe. “As pessoas nos reconhecem, nós estamos lá no dia a dia. A nossa viatura [sempre a mesma, um Renault Sandero] chega e eles sabem que é o Ebert e o Prado e ficam mais a vontade”, relatou Ebert.
Um problema social
Com o tempo, Ebert e Prado chegaram à conclusão que um dos maiores causadores da alta taxa de homicídios era a disputa entre grupos por pontos de tráfico. Essa descoberta fez com que uma das principais metas do grupo fosse o impedimento, tanto quanto possível, dessas guerrilhas e do tráfico em si. Para isso contam a ajuda do Pelotão de Operações Especiais (POE), do sistema de inteligência de Brigada, e de demais setores da polícia.
No entanto, nem por isso o trabalho é mais fácil, pois o trafico de drogas, afirmam os policiais, é um problema social. “Enquanto tiver gente consumindo vai ter tráfico, no entanto, o consumo não é considerado um crime”.
Educar a criança para não punir o adulto
“Educar a criança para não punir o adulto” é um dos lemas da dupla de policiais. Dessa forma, Prado explica que um de seus principais trabalhos é prevenção da criminalidade.
Começando desde cedo a conscientização das crianças, que muitas vezes levam para casa o que aprenderam, eles trabalham na raiz do problema. Dessa forma, a comunidade, principalmente os mais jovens tomam cada vez mais consciência de outras realidades que não a do crime. “Nós vamos um degrau de cada vez. Mas já é possível colher alguns bons frutos”, contou Ebert.
O projeto
O projeto Território de Paz é uma iniciativa do Programa RS na Paz, promovido pela Secretaria Estadual de Segurança Pública, em parceria com prefeituras municipais. A ideia é promover ações sociais e de segurança, para reduzir os índices de criminalidade nas comunidades vulneráveis à violência. Uma das atividades desse projeto é a Patrulha Comunitária, que tem como base projetos que já são realizados em países de primeiro mundo, em especial o Japão, país que serviu de modelo para a iniciativa implantada no RS.
O trabalho realizado diariamente é justamente a diferença entre o trabalho dos patrulheiros e do policiamento normal. “Normalmente o policial vai até o local, registra a ocorrência, se tem que prender, prende, se tem que orientar ele orienta, ele vai lá e resolve o problema, depois sai do local e vai pra outro local. O nosso trabalho e a nossa presença é diária”, explicam.
Eles não utilizam farda muito ostensiva por que com os anos de trabalho, eles se sentem a vontade e esse sentimento acaba se tornando recíproco. Além disso, a farda muitas vezes causa medo, e é justamente esse sentimento que eles pretendem evitar. Os patrulheiros, também evitam ao máximo o uso da força, reservando procedimentos mais ostensivos apenas para casos de extrema necessidade.
Fotos: Luana Ciecelski

















