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Cultivando a Cultura Popular

Jéssica Ferreira
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No último sábado, 8 de novembro, uma tarde por sinal tranquila e serena – onde poucas horas antes de se apresentar no Espaço Camarim em Santa Cruz do Sul, Victor Batista nos concedeu uma entrevista, contando um pouco sobre seu repertório e sua bagagem com a música popular.
O espaço era perfeito, estilo retrô, vintage e talvez rockabilly também. Aliás, todos os estilos e gêneros cabem ali, entretanto, o que mais fora conversando, tratava-se sobre a tal música popular, a qual resulta de uma interação contínua entre pessoas de determinadas regiões e recobre um complexo de padrões de comportamento e crenças de um povo.
Victor interpreta cantigas do cancioneiro popular brasileiro e sul-americano, composições próprias, releituras instrumentais e cantadas, alinhavadas com poemas e causos. O diferencial da sua apresentação, explica o artista, está na interação com o público. Além disso, Victor trabalha como cantor, compositor, arte-educador e violeiro autodidata. Atua na formação de crianças, jovens e adultos na região de Pirenópolis – GO, onde reside atualmente.
Sorridente e com seu sotaque mineiro, Victor abertamente relatou sobre seu conhecimento e experiências obtidas ao longo dos anos com a música e sua paixão, que é a viola caipira. Em entrevista, pôde-se conhecer mais sobre a cultura popular e entender o pouco que se está sendo valorizada no Brasil – país cuja qualidade é a diversidade de culturas, ritmos e sons.
Todos aqueles que se dizem apaixonados por música sabem que o som de uma viola tocada por mãos habilidosas tem seu valor. Melhor ainda quando se pode ouvir a música ao vivo, saindo do instrumento de forma única. Por isso, o sábado foi especial, onde santa-cruzenses tiveram a oportunidade de participar da apresentação de Victor Batista. Além disso, ainda sobre a cultura popular, pode-se dizer que o mais importante sobre ela não é o objetivo produzido, mas sim em relação ao artista, o povo, a periferia, que faz com que a arte popular seja contemporânea ao seu tempo e lugar.

Jéssica Ferreira

Victor Hugo Batista, 44 anos “Violeiro e viola são inseparáveis”

Riovale Jornal (RJ): Antes de tudo, desde quando se envolveu com instrumentos musicais?
Victor Hugo Batista (VB): A flauta faz pouco tempo. Isso porque, minha juventude se passou num período de mais ditadura, onde não tive aulas de aprendizado sobre a flauta. Porém, minha primeira aparição musical foi com o violão aos meus dez anos – é uma “historinha” que vou contar (risos). Nessa época eu estava de paquera com uma colega do colégio e havia dito a ela que sabia tocar violão, mas apenas disse isso porque achava ter uma noção por conviver com meus irmãos que sempre tocaram – mas na verdade, eu nunca havia tocado. Só que para minha surpresa, a menina me convidou para tocar na feira do cultural do colégio, onde ela cantaria e eu a acompanharia com o instrumento. Então, fiquei apertado, e meus irmãos não tinham horário para me ensinar devido às correrias do dia-a-dia e o curto prazo que eu tinha para aprender. Resultou que eu fiquei tristonho em casa, até que a amiga da minha irmã – que sabia tocar, ao chegar lá em casa e me ver naquela situação, perguntou o que houve, e ao contar – ela decidiu me ensinar. Recordo-me que ela me ensinou as duas primeiras notas da música, que era do Geraldo Vandré – “Pra Não Dizer que Eu Falei das Flores” – mas, sobretudo, a apresentação foi um fiasco total. (risos)
Depois desse episódio, comecei a ler revistas e aprender sozinho mesmo a tocar um violão. Até que chegou um dia, que me deparei através de pesquisas sobre cultura popular com a tal da viola caipira, que acabou tomando conta da minha vida. 

RJ: Tens algum ícone da música que te inspira?
VB: (Suspiros) São tantos! Mas, desses tantos – já falecidos, né?! Zé Coco do Riachão da década de 80 teve uma passagem importante em minha vida com sua violinha e apelido de “Beethoven do Sertão”. Além dele, foi com Almir Sater que vi pela primeira vez na televisão – ainda muito criança – a viola caipira. Então eu observava muito as pessoas tocarem, desde a época que toquei com a menina na paquera, pois era assim que eu ia aprendendo a tocar. E através do que observa em Sater, fui me encontrando com a viola caipira. Mas também não posso deixar de falar do Renato Andrade, Chico Lobo, Pereira da Viola que foram grandes mestres violeiros e me inspiraram muito.

RJ: Como você vê o momento da música brasileira hoje?
VB: Acredito que chegamos num fundo de poço. Sou sincero e crítico em dizer que o que a indústria fonográfica tem imposto para todos, forçando a forma de poesias e ritmos – como o arrocha – no qual, não tem nenhum baseamento e não há aquela forma estrutural onde possamos conversar de um ritmo para o outro. Temos um grave defeito, que valorizamos demais o momento “agora” – claro que é importante, mas o que acontece é que quando valorizamos apenas o agora, o passado fica esquecido. E é no passado que as coisas da cultura popular têm embasamento – o que tem faltado nas músicas brasileiras da atualidade. A cultura popular caipira, por exemplo, é base do meu trabalho. Nela se declama poemas, conta causos, canta canções e resgata melodias de uma cultura que não tem limite de imaginação e criatividade. O que pode ser feito com qualquer outro ritmo, sem essa forma completamente forçada que não se enquadra em cultura popular, mas sim, indústria.

RJ: Tens vindo muito ao Sul? 
VB: Minha última aparição foi em 2010 quando fui a Pelotas. Agora, estou realizando um circuito de músicos independentes – que acontece em todo o Brasil – e estamos trabalhando nisso, juntamente com idealizadora do projeto Kátya Teixeira, desde 2013 – onde fazemos um coletivo chamado Dandô, o qual leva o nome Dércio Marques. Esse coletivo nada mais é do que uma caravana musical que já está em mais de 40 cidades. No Rio Grande do Sul, o Dandô tem passado em Pelotas, Caxias do Sul, Terra de Areia, Soledade e agora vim com esta proposta de abrir em Santa Cruz do Sul. Neste circuito, todos os meses a cidade receberá um cantor de cultura popular de qualquer parte do país. O intuito deste projeto é interagir com a nossa cultura brasileira. Costumo dizer que já conhecemos nossas regiões – mas o Dandô vai além, levando de um estado para o outro um pouco da sua cultura e assim migrar nessa integração musical que nasceu do nosso país. Então são vários cantores independentes de todas as partes do país trocando sua experiência em cidades diferentes – uma vez que está acontecendo aqui, em outros estados está acontecendo o mesmo.

RJ: Como foi sua primeira turnê?
VB: Minha primeira turnê eu nem dormia direito – preocupado, nervoso. Fora aquela dinâmica de fazer a mala, refazer, ir para o hotel, ir para o palco. Não sabia o que ia fazer, como iria ser, que local e que sociedade eu iria conhecer – que na verdade, só  se conhece passeando. Mas, sobretudo, apesar de cansativo foi incrível – naquele momento vi que era o que eu queria para mim. E assim segui minha carreira. Sei que vou sempre conhecer tudo novo.

RJ: Quantos trabalhos já lançou?
VB: Meus são três. O primeiro foi chamado de “Além da serra do curral” (2004), que foi gravado com participações muito especiais de pessoas de Minas Gerais, como Chico Lobo, Carlinhos Ferreira – talvez aqui não conheçam, mas em Minas são grandes referências. O segundo foi mais compacto com seis músicas autorais, falando do “Bioma do serrado” – que nasceu de uma cartilha de educação ambiental, pois o bioma é o “berço das águas” – ele distribui as águas do Brasil de Norte e Sul. Então na Serra dos Pireneus, em Pirenópolis – lugar onde eu nasci – ela possui várias nascentes e cachoeiras – onde duas são as mais importantes, que banham a bacia do Paraná e outra a bacia de Tocantins. Através de pesquisas, chegamos à conclusão que todos nós somos ligados, por isso, se eu fizer mal para alguém, será a mesma coisa que fazer para mim. E a natureza é assim também, ou seja, se fizeram mal ao bioma lá do serrado que está a quilômetros e quilômetros de distância do Sul – estamos fazendo mal aqui também, por estarem ligados. Por fim (risos), assim construí meu segundo trabalho, tratando de educação ambiental. Já o terceiro, fiz o “Machete do tico-tico” que continua falando do bioma do serrado e essa consciência de educação ambiental.

RJ: E sobre música de raiz do Rio Grande do Sul, o que tens a falar?
VB: Acredito que o Rio Grande do Sul é um dos estados que tem mais cultivado suas raízes, desde as roupas ao sotaque. Mas principalmente com o próprio chimarrão – o que socializa todas as pessoas que são gaúchas e de fora como eu, que gosto de um chimarrão também. Mas enquanto à música, o tradicionalismo é encantador e as raízes seguem dentro da cultura popular – o que aqui é maravilhoso de conhecer e ouvir.