Everson Boeck
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Esta eleição se mostra curiosa. Para quem quer entender o que se passa no cenário fica um pouco difícil. Os partidos confundem a cabeça do eleitor ao fazer alianças que até então seriam improváveis. Ao unir opostos em alguns locais e em outros não, embaralham o cenário eleitoral e dão o tom da campanha, que começa oficialmente amanhã, 6 de julho.
No Rio Grande do Sul três siglas aliadas ao PT em nível nacional encabeçam chapas distintas (PMDB, PDT e PP) e disputam com o atual governador, Tarso Genro (PT). Já o PDT tem o apoio do DEM, e o PT do PTB, quem em nível nacional rompeu com o PT e uniu-se a Aécio Neves. No Estado, a coligação do candidato à presidência pelo PSB, Eduardo Campos, decidiu apoiar José Ivo Sartori, candidato a governador pelo PMDB, que tem como vice José Cairoli, do PSD, cujas legendas destes dois compõem a base de Dilma. A candidata ao Piratini pelo PP, Ana Amélia Lemos, tem o apoio de Aécio Neves (PSDB), mas em nível nacional a executiva do PP anunciou apoio à Dilma (PT).
O sociólogo do Departamento de Ciências Humanas da Universidade de Santa Cruz do Sul (Unisc), professor César Goes, explica que acontece uma situação de ambivalência no atual cenário político. “Não temos a tradição de partidos programáticos, embora eles devessem ser. No entanto, eles estão sempre vinculados às questões das demandas locais e atualmente é isso que está definindo as alianças, ou seja, o que está determinando uma coalizão aqui no Rio Grande do Sul pode não ser o mesmo fator para determinar uma aliança em nível nacional com os mesmos partidos”, considera.
A chamada “infidelidade partidária”, caracterizada entre outras formas como “a falta de identidade os partidos”, segundo Goes, está relacionada à maneira como as siglas lidam com a relação interna dos partidos. “Tudo depende de como eles trabalham com suas próprias tensões e essas, muitas vezes, não permitem que se force uma ruptura de cima para baixo. Um exemplo é o que aconteceu com o PT e PTB recentemente, os quais romperam em nível nacional, muito provavelmente por acordos não cumpridos ou descompassos durante o Governo atual, além, é claro, da tensão resultante do processo do Mensalão, denunciado originalmente por político do PTB. Mas no Rio Grande do Sul não havia o interesse de que esta aliança se desfizesse e a Executiva Nacional de ambos não interferiu nesta decisão”, sintetiza. “Pelo que se percebe atualmente, a pauta nacional é pela sobrevivência política e não por um programa de Nação”, aponta.
Esta situação (de “infidelidade partidária”), para o sociólogo, deveria ser relativizada. “Interesses comuns unificam programas que são distintos. Este é o horizonte aceitável e uma possibilidade do que chamaríamos de alianças partidárias distintas ou divergentes com o cenário nacional de cada partido ou coligação”, analisa.
Goes reforça a ideia de que Santa Cruz do Sul também é palco destes vai e vem das alianças, porém sempre com a força das relações locais como determinantes. “Tradicionalmente o PP tem a hegemonia política dos votos no município e por uma situação muito particular o PTB alcançou em um determinado período o poder local e o PP foi derrotado, retornando agora à Prefeitura”, exemplifica. Este movimento, de acordo com o sociólogo, também interferiu na composição da composição da Câmara de Vereadores, criando inclusive uma nova legenda na cidade e dividindo as bancadas que hoje seriam oposições. “O que pauta a força local do PP? A tradição política. O que pauta o movimento de facções partidárias em torno dessa força? O interesse pelo espaço no poder. O que pauta esta força do PP na região e no próprio estado se no cenário nacional ele perdeu tanto espaço? Uma tradição conservadora e em certos casos até retrógrada, mas segura de fazer política. E muitos partidos ou facções não enxergam prejuízos se trocarem seus programas por um espaço nesta tradição que retomou o seu lugar”, completa.














