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"É preciso falar sobre suicídio"

LUANA CIECELSKI
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FERNANDO LIMA
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Ainda era possível ouvir o mais imortal de todos os Coringas dizer: “Introduza um pouco de anarquia. Perturbe a ordem vigente e então tudo se torna um caos” quando chegou a noticia da morte de Heat Ledger, aquele que o interpretava. Uma morte tão contraditória como a de Robin Willians que deu uma lição de amor à vida no filme Patch Adams e depois também foi tragado pelo silêncio do suicídio. Além deles, poderíamos fazer uma lista longa de personagens que optaram por tirar a própria vida. Jimi Hendrix, Janis Joplin, Marlyn Monroe, Elvis Presley, Curt Cobain, Elis Regina, Chorão e mais recentemente, os cantores Chris Cornell da Soundgarden e do Audioslave e Chester Bennington do Linkin Park.

Esses, porém, são apenas os nomes famosos. Diariamente em todo mundo, mais de mil pessoas cometem suicídio. Uma a cada 40 segundos em média, o que equivale a 1,4% dos óbitos totais e a mais de um milhão de mortes anualmente, resultando em uma média global de 11,4 suicídios a cada 100 mil habitantes. Não à toa, a Organização Mundial da Saúde (OMS) vem considerando o suicídio como um grave problema de saúde mundial, e vem chamando os países para fazer a prevenção. Como fazer isso? Uma das formas mais eficientes é falando sobre o assunto.

Conforme explica a enfermeira e professora da Universidade de Santa Cruz do Sul (Unisc), doutora especialista em suicídio, Rosilaine Moura, o suicídio é um problema histórico, um fenômeno mundial que esteve presente em todas as fases da humanidade, ou seja, não é novo. Mas ele acabou se tornando um tabu por questões culturais, sociais e religiosas, e ainda hoje ele não costuma ser divulgado, nem mesmo na forma de taxas. O quem vem se percebendo, porém, é a necessidade de falar sobre suicídio.

“Está se percebendo que os países que falam mais sobre suicídio estão conseguindo diminuir suas taxas e que naqueles países onde não houve uma preocupação em relação ao assunto, continua havendo taxas altíssimas. A partir do momento em que se começa a falar sobre o assunto, as pessoas que estão em sofrimento, pensando em se suicidar, se sentem mais acolhidas pra falar de seus problemas e conhecem mais os serviços que são oferecidos para prevenir o suicídio”, explica. Vamos falar sobre suicídio então.

PROBLEMA LOCAL

O Brasil, dentro desse cenário, é um país de taxas baixas (5,4 suicídios a cada 100 mil habitantes). Mas o Rio Grande do Sul, não. Nos últimos 20 anos é o Estado com as maiores taxas – 10,14 a cada 100 mil habitantes. E dentro do Rio Grande do Sul, o Vale do Rio Pardo historicamente se destaca. “E não é apenas Venâncio Aires” aponta Rosilaine. “Houve pesquisas e publicações científicas que deram destaque a essa cidade, mas não é bem por ai”. Segundo ela, Santa Cruz do Sul, por ser uma cidade maior, tem taxas menores, mas o número absoluto de suicídios sempre foi maior por aqui.

Para se ter uma ideia, a média local é de 18 suicídios por ano, o que significa mais de uma ocorrência por mês e uma média maior do que a média mundial. O mais assustador, porém, é a análise das tentativas de suicídio. Segundo Rosilaine, elas chegam a ser 20 vezes maiores, ou seja, pelo menos 360 casos são registrados todos os anos. O levantamento realizado pela equipe do CAPS II (Centro de Atenção Psicossocial) vai de encontro com essa informação. Entraram no sistema municipal cerca de 550 pessoas novas no último ano. Todas por tentativas de suicídio ou, pelo menos, comportamentos suicidas.

FATORES DE RISCO

O que leva as pessoas a isso? São muitos os fatores de risco, aponta Rosilaine. Uso de álcool e drogas – algo muito ligado à vida de artistas – pode ser um fator, assim como a própria depressão também está muito relacionada. Porém é preciso ter cuidado. “Pode parecer que o suicídio sempre está ligado à uma doença psiquiátrica, mas não é assim. A doença psiquiátrica aumenta o risco, sim. É um fator de risco importante. Mas não é o único.  Nem todo depressivo se mata, e nem toda a pessoa que se mata é depressiva, bipolar ou esquizofrênica”, alerta.

Rosilaine defende a tese de que o suicídio é também uma questão psicossocial. “É como se fosse um copo de água que vai enchendo. Cada situação é um pouco mais de água. Até que chega aquele motivo que se transforma na gota d’água”, ela explica. Pode ser uma separação, uma falência, uma perda. A questão cultural também é um fator muito importante. Há culturas mais opressoras, mais rigorosas, com valores mais rígidos, e não é preciso ir longe para encontrar uma delas. Em Santa Cruz do Sul isso pode estar acontecendo.

Segundo Rosilaine, enquanto em todo o mundo as maiores taxas de suicídio estão entre os jovens e os idosos, por aqui são de homens com idade entre 40 e 55 anos que mais se matam. “Isso pode estar ligado à questão do sucesso financeiro a essa altura da vida. Talvez eles não conseguiram alcançar aquilo que eles tinham se proposto e estão frustrados. Esse autojulgamento rigoroso pode ser uma das causas”, ela aponta.

As dificuldades da vida no campo também estão na lista. “O trabalho no campo já não é mais um trabalho livre, onde o produtor faz seu horário. Agora ele segue as regras da indústria”. Há também a questão do preço do tabaco. Rosilaine observa que as taxas de suicídio sobem muito em novembro e isso pode ter relação com a negociação do preço do fumo. “Tu produz e no final da colheita tu não sabe o que tu vai receber. O valor é sempre uma surpresa, e essa instabilidade, junto com a questão do alcoolismo, aumenta o risco”.

E entre tantos outros fatores Rosilaine cita ainda aqueles que são característicos de determinadas faixas etárias, como a dos jovens e idosos. Os jovens tem toda a questão do mundo moderno e de uma forma de vida ainda em processo de construção, em constante mudança, o acesso às drogas, o consumo de álcool, a negligência e abandono dos pais. Os jovens também têm uma necessidade maior de testar limites acompanhada de uma impulsividade e de uma agressividade que juntas são uma bomba. Já os fatores dos idosos são o abandono e a solidão, a doença crônica, as doenças incapacitantes e as dores, além da sensação de não ser mais útil para a sociedade.

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FORMAS DE PREVENÇÃO

Sempre há sinais que podem ser observados. Eles podem variar de acordo com a faixa etária e com a personalidade, mas de uma forma geral podem ser percebidos, porque fazem parte daquilo que os pesquisadores chamam de comportamento suicida. Ele abarca desde a ideia de se matar, passando pelo planejamento de tirar a própria vida e pela tentativa de suicídio, indo até o suicídio propriamente dito. Porém, conforme explica Rosilaine, o ato em si é a ponta do iceberg. Por traz do suicídio há uma série de situações, sentimentos, comportamentos.

As pessoas que estão em sofrimento muitas vezes pedem ajuda falando coisas como “eu não aguento mais”, ou ainda “eu sou um fardo para a família”, no caso de idosos. E fazem isso com uma grande frequência. Esse também pode ter sido o caso do cantor Chester Bennington. Em entrevista à uma rádio, pouco antes de sua morte ele disse a seguinte frase: “Eu acho que as pessoas pensam que quando se você é bem-sucedido, você recebe um cartão dizendo que sempre será satisfeito e feliz por toda sua vida, mas não é bem assim”. Depois de sua morte, a frase foi considerada como um alerta.

Mudanças de comportamento também devem ser observadas. Quando a pessoa deixa de cuidar da aparência física, deixa compromissos, deixa de fazer coisas que antes lhe eram prazerosas. Também são sinais as mudanças alimentares ou do sono, assim como o surgimento ou aumento de hábitos compulsivos, vícios. No caso de idosos também é comum que eles comecem a doar objetos seus, dividindo coisas. Todos esses comportamentos são pistas.

E seguindo as orientações da própria OMS, falar tem sido uma das melhores formas de prevenção. A história de que se a pessoa quer se suicidar não adianta fazer nada é um mito. Estudos apontam que, na verdade, a cada 16 pessoas se suicidam, apenas seis tinham realmente essa intenção e fizeram isso conscientemente, deixando claro quais eram suas intenções e quais os motivos. As outras 10 apenas queriam aliviar um sofrimento, uma dor psíquica e acabaram tirando suas próprias vidas porque não tinham com quem falar ou a quem pedir ajuda. Não encontraram nenhuma outra forma de aliviar sua dor.

“Portanto, já está mais do que comprovado que falar sobre suicídio não provoca o suicídio. A pessoa que está pensando em se suicidar se sente mais confortável para conversar se falarmos sobre suicídio”, garante a pesquisadora. Além disso, muitas pessoas cometem o suicídio no momento do impulso. Isso é notado especialmente com jovens. “Então, se no momento em que a pessoa está atingindo o ápice da dor dela, ela tiver alguém com que conversar, alguém que toque nela, que olhe ela, que fale gentilmente, ou que a escute, as chances de que ela pare, pense melhor e mude de ideia são muito grandes”.

Rosilaine aponta ainda que sempre é valido perguntar pra pessoa se ela está querendo ou tentando se matar. “Isso não vai incentivá-la a se matar. Isso vai, no máximo, mostrar para pessoa em questão que você está disposto a conversar”.

Rosilaine Moura, enfermeira

COMO LIDAR COM O SUICÍDIO?

Eventualmente, porém, vamos nos deparar com situações de morte voluntária. Por mais que se busque a prevenção, que se fale sobre o assunto. Nesses casos, os que ficam, aqueles que a OMS chama de “sobreviventes” precisam saber lidar com esse tipo de morte. Sejam eles familiares, amigos, ou mesmo fãs de artistas que se mataram.

É natural que o luto do suicídio seja muito mais complexo do que o luto comum. Porque “além da dor da perda há a culpa – o que eu fiz? Como não percebi? -, há também a raiva – porque ela não pensou em mim? Eu não tinha nenhuma importância? Meu amor não valia nada? -, e a vergonha porque o assunto é um tabu e a família fica marcada”. Por isso, Rosilaine defende que essas pessoas devem receber um acompanhamento psicológico também, para que elas não sofram a ponto de repetir o ato.

No caso de fãs de um artista que se suicidam, o acompanhamento também deve acontecer, nem que seja por parte de pessoas próximas. Especialmente se ele for jovem, porque os artistas são influenciadores e os jovens são imitadores. “Em todos os casos há a preocupação de mostrar que o suicida, no momento de crise, não tem uma visão comum do todo e sim uma visão estreita da realidade, que ele sente uma dor psíquica muito grande. Há uma preocupação em mostrar que não existem culpados”, diz Rosilaine.

ONDE PROCURAR AJUDA EM SANTA CRUZ DO SUL?

– Todos os Postos de Saúde, Unidades Básicas de Saúde (UBS) e Estratégias de Saúde da Família (ESF) do município recebem pacientes que estejam enfrentando problemas como os descritos na reportagem e os encaminham ao CAPS II, onde o atendimento é especializado.

– Há também o número do Centro de Valorização da Vida (CVV), o 141, que realiza apoio emocional e prevenção do suicídio, atendendo voluntária e gratuitamente todas as pessoas que querem e precisam conversar, sob total sigilo por telefone, email, chat e Skype 24 horas todos os dias.

– O CAPSIA (Centro de Atendimento Psicossocial da Infância e Adolescência) também está de portas abertas nos dias úteis, das 8h às 18h, e para agendar atendimento de crianças e adolescentes não é necessário encaminhamento. O Capsia está localizado na Rua Marechal Floriano, 1334.

– Além deles, os prontos atendimentos do Hospital Santa Cruz e da UPA estão aptos a receber pessoas após tentativas de suicídio, tratá-las e encaminhá-las para acompanhamento no CAPS II.

Depoimento do Mensageiro

“É preciso pensar que amanhã será outro dia. Mesmo que tu estejas sem perspectiva, se tu parar um pouco, descansar, desligar de tudo, der uma volta, sentir um vento no rosto, tu consegue passar pelos problemas. Também acho que é preciso acreditar nas coisas boas. Sempre tem um lado bom. Até a dificuldade, porque a gente aprende com ela. E há as coisas simples. O canto dos passarinhos, o sol brilhando. Tem muita coisa boa pra gente ver. Além disso, acho que pequenos gestos também são bacanas. As pessoas precisam tratar melhor uma às outras. Olhas mais para quem está ao lado. E eu acho que é isso que faz falta às vezes. Um aperto de mão, um abraço. Precisamos valorizar mais o ser e não tanto o ter. Precisamos buscar a essência das coisas. A essência do ser. O que há por dentro.”

Mensageiro das Sombras