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Esperando uma visita que não viria

O Natal ia chegar, como todos os anos. Nesse, porém,há 13 anos atrás, eu estava muito apreensiva. Seria o primeiro Natal sem o pai de minhas filhas. Um Natal em que a incompletude da família iria estar evidente. Esforcei-me ao máximo para minimizar o impossível. Comprei presentes, enfeitei uma árvore enorme e contatei o Papai Noel para distribuir os presentes.
Na noite do dia 24, véspera de Natal, todas nós, eu e minhas três filhas colocamos nossas roupas novas e esperamos Papai Noel. O bom velhinho chegou, com seu alegre: “hohoho” e iniciou a entrega dos pacotinhos coloridos que continham os pedidos de Natal da galerinha. As meninas abriram seus presentes, exceto a caçula Letícia. Essa ficou com os presentes fechados no colinho e sorria. Falei pra ela: “Abre.Confere para ver se o Papai Noel acertou”. Ela, muito sorridente, respondeu que não. “Não vou abrir”, disse a pequerrucha.“Vou esperar meu papai e abrir com ele”.
Com o coração em pedaços falei que ele não poderia vir, nunca mais, que estava nos olhando lá do céu e que ela abrisse seu pacote. Sorrindo ainda ela disse: “Não, eu sei que meu papai vai vir. Ora, se no Natal o meu papai não vai vir abrir os presentes comigo!” O dindo dela chegou e salvou momentaneamente a situação. O presente recebidodele ela abriu. Aproveitou e brincou. Aos cochichos informei o compadre o que acontecia com os demais presentes. Ele tentou abrir os presentes com ela, mas ela não permitiu, afirmando estar esperando o papai e que tinha certeza que ele viria.
Com o passar do tempo, ela adormeceu com os presentes fechados em seu colo. O dindo carregou-a para a sua cama. Pensamos em uma solução para o impasse, muito tristes. Então ele teve a ideia de abrir os presentes e deixa-los ao lado da cama.
Fui dormir triste naquela noite, preocupada com o amanhecer e a decepção da minha caçulinha. Entretanto, na manhã, muito cedo, acordei com os gritos de felicidade dela: “Viu só, meu papai veio e abriu todos os presentes pra mim.”
Tenho minhas dúvidas até hoje, se fui eu e meu compadre, ou se foi mesmo o papai de minhas filhas que veio abrir os presentes. Mas, de uma coisa tenho certeza, não é preciso ver, basta crer e ser feliz.

Divulgação/Arquivo pessoal

Miriam Neumann Trindade, professora e diretora do 18° Núcleo do Cpers/Sindicato