Início Geral Hélio Etges: “A gente ensinava os primeiros passos”

Hélio Etges: “A gente ensinava os primeiros passos”

Jornalista e professor Hélio Etges acredita que o caráter comunitário é uma das marcas do Riovale
Foto: Fabrício Goulart

Fabrício Goulart
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Não há como falar da história do Riovale Jornal sem uma das figuras mais emblemáticas da imprensa regional. Professor dos cursos de Comunicação Social & Criatividade da Universidade de Santa Cruz do Sul (Unisc) há décadas, o jornalista Hélio Afonso Etges teve uma longa passagem pelo veículo e deixou a sua marca, tanto pelo rigor na apuração e pelo profissionalismo quanto pela disposição em produzir reportagens diferenciadas.

Entre 1992 e 2000, Etges atuou como repórter e, posteriormente, editor. Em uma época em que a produção jornalística ainda era feita em máquinas de escrever, filmes fotográficos e montagem manual das páginas, ele ajudou a construir uma redação que, além de acompanhar o cotidiano de Santa Cruz do Sul, buscava espaço para pautas mais aprofundadas.

Entre as lembranças dos anos em que trabalhou na publicação, uma característica aparece com força: o impresso não era apenas um lugar para produzir as notícias do dia. Também era um espaço de aprendizado, experimentação e formação de novos jornalistas. Muitos profissionais passaram pela redação e, posteriormente, seguiram carreira em outros veículos.

Para Etges, uma das marcas daquele período foi justamente a possibilidade de jovens profissionais começarem no jornal sem experiência anterior e aprenderem na prática. “Parecia a ‘Escolinha do Riovale’. Era legal formar as pessoas que vinham ali e não tinham experiência. A gente ensinava os primeiros passos do texto”, recorda. A experiência servia como uma espécie de porta de entrada para a profissão.

Reportagens diferenciadas

Formado em Comunicação Social – Jornalismo pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS) em 1986, Hélio Etges havia trabalhado com assessoria de imprensa em Porto Alegre antes de retornar à cidade natal, Santa Cruz do Sul. No Riovale, começou produzindo as notícias do cotidiano, mas logo passou a se dedicar também a reportagens mais aprofundadas. “Eu comecei, num certo momento, a focar um pouco em reportagens também. Fazia umas coisas diferenciadas, que a empresa topou que a gente fizesse”, conta.

Entre os primeiros trabalhos, e dos quais se orgulha, estão matérias sobre a educação municipal e uma série sobre incêndios que ocorreram em sequência na cidade. Segundo ele, o conteúdo reuniu informações que não costumavam aparecer nas publicações do dia a dia. A aposta em trabalhos diferenciados também apareceu em uma cobertura sobre a Rio-92, a Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e o Desenvolvimento, que aconteceu em 1992. “Eram coisas diferentes que a gente conseguia, e coisas que não tinham sido muito ventiladas pelos meios de comunicação”, lembra.

Esse modelo de ação se repetiu ao longo dos anos. Em 1996, por exemplo, o jornalista acompanhou o processo de desenvolvimento da produção de flores em Santa Cruz do Sul. A pauta surgiu a partir de um projeto que buscava estimular a atividade no município. Ele chegou a produzir uma reportagem sobre o cultivo de kalanchoes em uma estufa. “O jornal apostava muito nesse tipo de trabalho, que era material diferenciado, nosso”, afirma.

Na época da redação analógica

O professor não deixa de observar que a rotina na redação era muito distante da realidade atual. Quando Hélio Etges começou no Riovale, a produção ainda era feita de maneira essencialmente manual. As páginas eram montadas em grandes folhas de papel quadriculado, onde eram definidos os espaços para textos, fotografias e anúncios. Tudo muito diferente dos programas de computador utilizados atualmente.

“O João Trinks e o André (Dreher), eles marcavam tudo: onde ia a foto, onde ia a matéria, onde ia anúncio. Eles montavam todo um espelho para a gente, para saber que espaço a gente tinha”, conta. O jornalista lembra ainda que as fotografias ainda eram feitas em filme. Portanto, precisavam ser reveladas em laboratório. Por conta disso, o fechamento das edições avançava pela madrugada, especialmente quando havia acontecimentos esportivos importantes.

Naquele período, o jornal também chegou a ter quatro edições semanais e publicações com grande número de páginas. Havia cadernos e projetos especiais, como o Caderno 2 e o jornal O Imigrante, voltado ao público rural e distribuído também por meio do Sindicato dos Trabalhadores Rurais (STR) de Santa Cruz do Sul.
Outro projeto que Etges recorda é o Página 7, resultado de uma parceria entre o curso de Comunicação Social da Unisc e o Riovale Jornal. Os estudantes produziam materiais jornalísticos que eram publicados mensalmente. A iniciativa surgiu poucos anos depois da criação do curso, em 1994.

Etges destaca que uma das características do Riovale ao longo dos anos foi a capacidade de fazer com que a comunidade se reconhecesse nas páginas do jornal. Durante o período em que atuou na redação, o veículo sempre buscou abrir espaço para diferentes grupos, opiniões e setores da sociedade. “Essa era muito a ideia que a gente tinha, de abrir o jornal, para que a comunidade se representasse ali, e que o jornal fosse uma espécie de referência”, afirma.

Na avaliação do jornalista, esse caráter comunitário permanece como uma das marcas do Riovale ao longo de sua história. “Ele manteve, sim, aquele mesmo ritmo de focar na comunidade, nas coisas da comunidade”, afirma. Ao avaliar os 50 anos do periódico, Etges considera que ele construiu uma trajetória própria ao manter como referência a relação com a comunidade.