Início Geral Patrícia Schuster: “As pessoas se enxergam, se identificam”

Patrícia Schuster: “As pessoas se enxergam, se identificam”

Patricia destaca voz plural no jornalismo regional
Foto: Fabrício Goulart

Fabrício Goulart
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Ao longo de décadas, o Riovale Jornal não apenas contribuiu para a formação de gerações de jornalistas, como também abriu as portas para aquela que, muitas vezes, foi a primeira experiência profissional de estudantes e recém-formados. Em suas páginas e na rotina da redação, diferentes profissionais tiveram a oportunidade de aprender, experimentar e construir os primeiros passos de suas trajetórias no jornalismo.
Para a coordenadora dos cursos de Comunicação Social & Criatividade da Universidade de Santa Cruz do Sul (Unisc), Patrícia Schuster, o veículo tem sido um espaço muito significativo na vida de muitos profissionais. “Sem sombra de dúvidas, é um lugar em que nossos egressos tiveram a oportunidade de adquirir experiências que modificaram – para muito melhor – suas vidas”, pontua.

Patrícia afirma que o Riovale, ao completar 50 anos, mantém um papel importante no jornalismo regional por oferecer uma perspectiva própria sobre os acontecimentos. “Sempre foi uma voz que se constituiu plural para o jornalismo regional. Trouxe, muitas vezes, uma perspectiva diferente para o mesmo fato”, aponta.

De acordo com a professora, a multiplicidade de vozes é determinante para o próprio “fazer jornalístico”. Isso porque um mesmo acontecimento pode ser observado sob diferentes ângulos, evitando que uma única visão se estabeleça como representação da realidade. “É muito importante que nós tenhamos muitos veículos, porque é sempre uma perspectiva diferenciada para um mesmo acontecimento”, observa.

Identidade local

A pluralidade da imprensa regional se relaciona, segundo ela, a uma outra função essencial vista no Riovale Jornal: a capacidade de fazer com que as pessoas se reconheçam nas histórias que são contadas sobre o lugar onde vivem. “As pessoas se enxergam, se identificam a partir desse tipo de narrativa”, afirma.

Patrícia conta uma situação vivenciada durante o mestrado para explicar essa relação. Uma criança de Rondônia telefonou para uma familiar e perguntou: “Como é que tá aí no Brasil?”. A pergunta chamou sua atenção porque revelava a distância existente entre diferentes regiões do próprio país.

A experiência passou a ser usada como exemplo da importância de uma imprensa capaz de retratar as particularidades de cada comunidade. Segundo a jornalista, regiões distantes dos grandes centros muitas vezes aparecem no noticiário nacional apenas quando algum acontecimento rompe aquilo que é considerado normal.

O jornalismo local e hiperlocal ocupa, portanto, um espaço próprio. Sotaques, imagens, personagens e acontecimentos cotidianos ajudam uma população a se reconhecer na narrativa sobre sua própria realidade. “O jornalismo local e hiperlocal fortalece esse senso, cria esse senso, reforça o pertencimento àquela comunidade”, avalia.

Público segue

Ao analisar o futuro do jornal impresso, Patrícia acredita que o formato ainda terá público. Contudo, precisa encontrar um papel diferente daquele desempenhado pelas plataformas digitais. “Eu penso que ele vai se manter. Talvez ele precise urgentemente verificar, rever, repensar a sua proposta”, afirma.

Se a internet entrega informação em velocidade cada vez maior, o impresso precisa apostar justamente naquilo que não está relacionado à rapidez: análise, profundidade e reflexão. “Tem que se problematizar, tem que se analisar, tem que ter um perfil, tem que entregar para o seu leitor algo diferente. Algo totalmente diferente daquele consumo rápido e veloz que a internet nos entrega”, diz.

O papel vital do jornalista

O avanço das redes sociais e da inteligência artificial acrescenta novos desafios ao trabalho jornalístico, avalia a professora de Comunicação. A produção de imagens, vídeos e outros conteúdos pode ser feita com facilidade e alcançar rapidamente um grande número de pessoas. Nesse cenário, Patrícia considera a atuação do jornalista “vital”.

Para ela, não basta produzir um conteúdo formalmente bem elaborado, mas é necessário compreender o compromisso ético e social envolvido na informação. “A importância cultural que determinada notícia tem para uma região nem sempre está no radar desse sujeito”, afirma. A professora é categórica ao falar sobre o futuro da profissão: “Eu tenho certeza absoluta da relevância, da importância e da condição urgente, cada vez mais urgente e necessária, da profissão jornalista”.

Ao enfocar os 50 anos do Riovale Jornal, Patrícia destaca a importância da permanência do veículo para Santa Cruz do Sul e para a história da região. “Eu desejo vida longa ao Riovale, desejo que ele continue exercendo o seu papel como o fez até então, com responsabilidade, criticidade e todos os preceitos que regem o bom jornalismo”, acentua.