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Locomotiva: os passos para a revitalização

Vagão de passageiros apresenta partes quebradas e enferrujadas

Ricardo Gais
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Colocada na Praça Siegfried Heuser em setembro de 2015, com a parceria de algumas empresas da cidade e iniciativa do ex-secretário de Educação e Cultura na época, Nasário Bohnen, a locomotiva, juntamente com mais dois tenders está a caminho de ser revitalizada. A máquina que pesa 43 toneladas, no estilo a vapor, modelo Mikado nº 648, permanece no mesmo estado desde quando foi trazida do Campus da Universidade Luterana do Brasil (Ulbra), em Canoas. 
A linha de trem foi um almejado por imigrantes alemães que se instalaram na vila de Santa Cruz, em 1849. O trajeto da linha de 31 quilômetros ligava a Estação de Couto, Ramiz Galvão de Rio Pardo, a Santa Cruz, e foi inaugurada em 15 de novembro de 1905, no antigo ramal que ligava a Estrada de Ferro Porto Alegre-Uruguaiana. Foram longos anos de espera da comunidade até a estação ser inaugurada. Com ela em funcionamento, visitantes que desciam dos vagões de passageiros, enxergavam o local como um grande potencial para investimentos, tornando Santa Cruz uma grande cidade. Ainda no mesmo ano, a Vila de Santa Cruz foi elevada a categoria de cidade. 
Em consequências da decadência do sistema ferroviário no Brasil, o ramal foi desativado em 1965 e em seguida, ocorreu a desativação da Estação Férrea. A comunidade então se mobilizou para evitar que o prédio da Estação fosse demolido, e que ocorresse a preservação desse patrimônio histórico para a cidade de Santa Cruz do Sul, que permanece intacto até os dias de hoje, 
Atualmente no Centro de Cultura Jornalista Francisco José Frantz, encontra-se a Estação Férrea Santa Cruz, juntamente com o vagão de passageiros, denominado de Z-222, que já está no município desde 2007, com a locomotiva mais os dois tenders, que apresentam estragos e não receberam alguma revitalização desde que estão na cidade.
Para quem observa a locomotiva na parte frontal, que se encontra a caldeira, o espaço se tornou uma espécie de “quarto” para moradores de rua, onde pode ser visto um travesseiro e papelão, e ao fundo, uma divisória serve como uma “adega” de bebidas. 
Cidadãos que frequentam o local para lazer, tirar fotos ou pessoas que diariamente passam por ali para trabalhar, relatam que o mesmo precisa de melhorias, pois é um monumento que chama atenção, e moradores de rua que dormem em baixo do trem ou até dentro, deveriam ser encaminhados para um local apropriado, visado a invulnerabilidade que se encontram e impedindo quem deseja chegar mais perto do trem para fazer fotos.
Em entrevista com o ex-secretário da Cultura, Edemilson Cunha Severo, na tarde última quinta-feira, 20, ele disse que futuras revitalizações serão realizadas na locomotiva, bem como nos tenders e no vagão.
Segundo Edemilson, para fazer o restauro neste monumento, foi gerado um documento chamado de “Acordo de cooperação técnica”, autorizado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), do Estado na época, para que a locomotiva pudesse ser retirada da cidade de Canoas e trazida a Santa Cruz, onde já estava o vagão de passageiros e um tender. Em 2015, foi juntado a eles a locomotiva e mais outro tender.
“Esse termo de cooperação foi celebrado. Os bens que eram oriundos da rede Ferroviária Federal do Brasil, não estão mais afetos aos cuidados do Iphan e passou para o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT). Então o município teve que optar por outro tipo de providência, antes de encaminhar qualquer projeto”, explica Edemilson. 
As intervenções na locomotiva, mesmo se tivessem recursos para tal, não poderiam ser feitas, pois a prefeitura teve que solicitar uma vistoria do bem histórico em 2019, junto ao DNIT. “Recebemos o corpo técnico do DNIT com seus engenheiros e eles produziram uma vistoria realizada no dia 27 de maio de 2019. A partir de então, foi produzido um documento que se chama Ficha de Inspeção e Equipamentos de Materiais Diversos. O DNIT fotografou a locomotiva, que demostra as condições do bem e colocou que ela então necessitava de uma intervenção”, disse o ex-secretário.  
Após esse cadastramento com o DNIT com todos os documentos necessários, tanto da Secretaria Municipal de Cultura bem como do prefeito municipal, foi preenchido um “termo de veracidade”, para que só assim o município de Santa Cruz pudesse se apropriar do monumento, nos moldes que o DNIT solicitou. Atualmente o DNIT é o departamento que controla todas as intervenções em bens oriundos da rede ferroviária no Brasil.   
Segundo Edemilson, o processo da documentação foi concluído ano passado, no mês de dezembro e o DNIT está ciente de todas as exigências concluídas pelo município. O então secretário salienta que esteve novamente junto com o Iphan, que sugeriu que a locomotiva e os tenders fossem incluídos em uma lei municipal, para que então os bens pudessem ser definitivamente legalizados, assim a busca por recursos para realizar a intervenção de manutenção seria realmente possível. 

Caldeira se tornou abrigo para moradores de rua e ao fundo há uma divisória usada como uma espécie de 'adega'

“A lei está produzida, já existe! Essa lei foi discutida internamente na prefeitura, que seguirá para a Câmara Municipal de Vereadores, provavelmente na próxima quinta-feira, 27. Será encaminhada e assinada pelo prefeito a alteração da lei que inclui, além da locomotiva, outros monumentos históricos da cidade, que algum dia certamente precisarão cumprir os pré-requisitos para sofrerem alguma intervenção ou manutenção”, salienta Edemilson.
A lei que já existe e será alterada, incluirá a legislação e procedimentos para proteção dos bens em Santa Cruz. Já há uma minuta, que inclui os bens patrimoniais históricos do município, além da locomotiva, os dois tenders, o vagão e mais os monumentos históricos do Monumento ao Imigrante, Praça Getúlio Vargas, Praça da Bandeira e Praça Siegfried Heuser. Todos serão incluídos neste processo de alteração da lei. “Para que possamos ter a lei aprovada, encaminharemos a busca por recursos para revitalização. Porém, há um detalhe, já existe um projeto pronto submetido à lei de incentivo à Cultura Federal, apenas aguardando o documento, para que o processo possa ganhar andamento”, explica Edemilson, que ainda ressalta, “a lei de incentivo à cultura exige que a captação de recursos seja através de uma lei municipal, estadual ou federal. No nosso caso já existe lei municipal, só estamos inserindo os bens dentro dessa lei”.
Segundo o então secretário, somente o vagão azul será revitalizado com recursos próprios do município, que devem custar entre R$ 35 a 49 mil pelos orçamentos realizados até hoje. Uma atualização nesses valores ainda deve ocorrer, pois o processo de contratação será encaminhado para a Secretaria da Fazenda, na quarta feira, 26.
Uma vez que aprovada a lei pela Câmara de Vereadores, o município poderá juntar os documentos, ficando apto a buscar recursos para revitalizar a locomotiva. Edemilson frisa que se fosse realizado uma restauração idêntica de como foi a locomotiva, não haveria recursos suficientes, além de um alto custo de mão de obra e das peças. Por isso, será realizada uma revitalização com lixamento e pintura, para manter o que já tem, mas revitalizar com base no que existia. 
O último orçamento para a locomotiva foi realizado no ano de 2019, com o total somado aos dois tenders, de R$ 300 a 400 mil, em média. Há três empresas interessadas em realizar o serviço. Ganhará aquela que ofertar o melhor valor. “Seria 280 a 350 mil para recuperar a locomotiva e estamos prevendo também uma cobertura para esse monumento”, disse Edemilson. 
A ideia de cobrir a locomotiva é para evitar que nos próximos anos, novas intervenções tenham que ser feitas, devido ao desgaste através do clima. Os recursos serão através de lei de incentivos ou de busca de captação de outras fontes por uma emenda parlamentar, mas o município se preocupou logo em procurar uma lei de incentivo.
A cobertura que será feita, deve ter um trabalho especial, visto que ela não pode interferir no prédio de patrimônio histórico, assim a cobertura terá as mesmas características do prédio histórico.      
O ex- secretário da Cultura, Edemilson, finaliza dizendo o seguinte: “do ponto de vista legal está tudo pronto. Agora é partir para a ação, desde que a Câmara aprove o projeto, a prefeitura está pronta para tocá-lo e buscar os recursos necessários”. (Com informações do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico do Estado).