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Mulheres com a mão na massa (corrida)

Suilan Conrado
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Que a preferência pela profissão é masculina, ninguém pode negar. No entanto, a engenharia civil vem conquistando cada vez mais as mulheres. Segundo o Conselho Regional de Engenharia e Agronomia do Rio Grande do Sul (Crea-RS), existem 14.184 engenheiras registradas atualmente no Estado.
Letícia Diesel é uma delas. Paulista de Campinas, a engenheira escolheu a Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) para realizar toda a sua formação acadêmica. Veio a  Santa Cruz do Sul para  participar de um projeto que não levaria mais de um ano para concluir,  porém, a descendente de Rudolf Diesel* prestou um concurso docente e foi aprovada em primeiro lugar. Desde então, a atual coordenadora do Curso de Engenharia Civil da Universidade de Santa Cruz do Sul (Unisc), passou a construir sua história aqui.

Rolf Steinhaus

Letícia Diesel, coordenadora do Curso de Engenharia Civil da Unisc, é mais um exemplo de que a mulher tem plenas condições de atuar e chefiar em todas as áreas do mercado

– Letícia, fale um pouco sobre sua formação acadêmica, e nos conte como veio parar em Santa Cruz do Sul.
“Nasci em Campinas, São Paulo. Entre diversas cidades que residi, foi em Santa Maria na UFSM onde realizei toda a minha formação acadêmica.  Em função da Unisc, eu acabei vindo a Santa Cruz do Sul para trabalhar. Na época estava terminando o mestrado e trabalhava em projetos pela UFSM, e foi através de um destes projetos que me candidatei para trabalhar e fui selecionada. Inicialmente, o projeto seria para um ano de contrato. Iria morar aqui em Santa Cruz do Sul por apenas um ano, e estou há mais de 10. A docência na Unisc veio logo em seguida, acabei fazendo um concurso na área em que atuo para lecionar, e passei em primeiro lugar para a vaga docente. Tenho ministrado diversas disciplinas nos vários cursos, tais como: Engenharia Civil, Engenharia de Produção, Engenharia Mecânica, Medicina, Química. Também em Santa Cruz do Sul, passei a trabalhar como perita judicial junto à Justiça Federal, foram 10 anos. O trabalho como “expert”, faz com que continue estudando e vivenciando diversas situações ligadas à área do Direito, tais como avaliação de insalubridade, de trabalho penoso. Enfim, proporciona uma mescla de novos conhecimentos que utilizo em sala de aula.”

– Por que escolheu a profissão de engenheira civil? Foi motivada por alguém da família?

“A engenharia civil é a mais tradicional das  engenharias, e sendo descendente de Rudolf Diesel, talvez já tenha nascido com vocação para a área. Também tive a forte influência do meu tio, engenheiro responsável por obras espalhadas em toda a América Latina. Mas confesso que a admiração pelo trabalho de meu avô, mestre de obras, foi a que mais contribuiu para a minha escolha.”

– Sabe-se que a engenharia é essencialmente uma escolha masculina. Você sofreu preconceito na faculdade ou até mesmo de amigos e familiares quando decidiu ser engenheira?
“Quando escolhi a engenharia, há cerca de duas décadas atrás, tínhamos um cenário muito diferente do que temos hoje. Na década de 90, com a recessão econômica a engenharia já era uma escolha complicada – sem grandes perspectivas.  Atrelado a isto, o fato de ser mulher, tornava mais difícil a colocação no mercado de trabalho. Tive um apoio muito grande dos meus pais, de amigos, professores e de colegas. A dificuldade apareceu quando eu fui buscar um estágio em obras, logo que entrei na faculdade já quis buscar esta experiência.”

Como foi quando você se inseriu no mercado de trabalho?  Os colegas eram homens, em sua maioria?
“A minha inserção no mercado de trabalho foi bastante interessante e foi onde deparei-me com algumas dificuldades, pois como eu já estagiava na Prefeitura Municipal de Santa Maria e também já havia realizado estágio e trabalhos no laboratório de materiais da UFSM, estava em busca de um estágio em obra, aquele de acompanhamento de edifícios comerciais e residenciais.  Vi o anúncio em um mural do curso da vaga de estágio em uma construtora muito conhecida na cidade, e candidatei-me. E foi na entrevista deste estágio que vivenciei  este preconceito, pois houve uma certa rejeição pelo engenheiro que me entrevistava… Talvez pelo fato de ser mulher ou pela minha insipiência… Ele aconselhou-me a ficar em escritório! Mas como eu realmente queria obra, e com a intervenção de uma professora  acabei sendo contratada para a vaga. Dois meses depois eu estava acompanhando duas obras – um edifício de 9 pavimentos e outro de 15. Foi muito importante esta experiência e este convívio, tanto que depois de formada fui contratada por esta mesma construtora. Os colegas, desde o tempo da faculdade e até hoje aqui no departamento onde atuo, são em sua grande maioria homens.”

– O que você fez para driblar o, digamos assim, desdenho dos outros perante sua profissão?

“Sempre fui muito dedicada e trabalhei muito, mais do que necessário ou ‘simplesmente o cumprimento do horário’. Aliado a isto, sempre continuei estudando bastante,  continuei os estudos, busquei especialização na área de Segurança do Trabalho e o Mestrado em Engenharia de Produção, além de cursos e eventos.  Com a engenharia e a forma como foi conduzida a minha formação, estudo até hoje, todos os dias.”

– Em algum momento, você se arrependeu da escolha que fez?
“Em momento algum.”

– Se não fosse engenheira, o que você seria?
“Definitivamente, engenheira.”

– Atualmente você é coordenadora do Curso de Engenharia da Unisc e professora, certo? O desafio é maior “na rua” ou dentro da sala de aula, com os futuros engenheiros?
“Atualmente coordeno o Curso de Engenharia Civil da Unisc, também o curso de especialização em Engenharia de Segurança do Trabalho, leciono também em outros cursos da Instituição e realizo perícia técnica auxiliando diversos advogados. Os desafios estão fora e dentro da sala de aula, pela constante dinâmica do aprendizado. Uma sala de aula assemelha-se a um canteiro de obra no seguinte aspecto: a cada dia uma evolução e não há uma rotina estabelecida, os desafios são diferentes a cada dia.” 
– Por que considera a profissão ‘de grande valor’?
“A profissão é de grande valor para a sociedade e o desenvolvimento de uma nação. A importância da Engenharia Civil é tão grande que se torna praticamente impossível pensar o mundo sem a sua presença. Ainda, o engenheiro civil é o profissional mais importante quando o assunto é estrutura, pois ele está habilitado a lidar com projetos e construções de edifícios, pontes, estradas, túneis, barragens, portos, aeroportos, usinas de geração de energia, entre outros de grande porte.”

– As cidades do mundo todo crescem sem parar. Inclusive Santa Cruz, que está praticamente virada em um canteiro de obras.  Como você avalia  o campo de trabalho da engenharia? Diria que está no seu auge?

“Na realidade, o que vemos hoje, reflexo de duas décadas ‘paradas’, nos levou a elevados índices de déficit habitacional no país e na região. Só para se ter uma ideia em 2001 a demanda habitacional total no país era de cerca de 20%, isto sem contar nas famílias que viviam em domicílios inadequados. Com investimentos no setor e através de programas específicos, o número de habitantes com ‘casa própria’ tem aumentado e em 2009 a demanda habitacional foi reduzida para cerca de 16%. Entretanto, ainda há muito o que ser construído,  não só em habitações,  mas também em  infraestrutura urbana e viária. Isto demandará de grandes investimentos do poder público  para proporcionar melhores condições de vida para a população através de sistemas adequados de abastecimento de água, rede coletora de esgoto, ruas e calçadas trafegáveis, rodovias adequadas  entre tantas outras obras. A engenharia civil está vivendo o seu melhor momento desde a década de 70.”

–  Você concorda com a afirmação de que a mulher está cada vez mais independente e tem plena capacidade de atuar em qualquer área da sociedade?
“Cada vez mais, a mulher está mais independente e com mais capacidade para atuar em qualquer área da sociedade. Hoje sou mulher, engenheira, docente, esposa e mãe.”

Arquivo Pessoal

Turma de Engenharia Civil da UFSM: Letícia e cinco colegas integram o time formado basicamente por homens

 

*Rudolf Diesel foi o engenheiro mecânico inventor do motor a diesel.