
Nelson Treglia
[email protected]
Em tempos um tanto longínquos, a dona Irma Lau nasceu em Santa Cruz do Sul, filha do professor Alfredo Lau e de Elsa Molz Lau. Passou a sua infância em Rio Pardinho. Aos 18 anos, foi atacada novamente por um antigo mal que a afligia: uma alergia asmática. “Somente um médico alemão em Santo Ângelo conseguiu livrar-me desta enfermidade”, conta Irma.
Aos 25 anos, foi convidada para trabalhar no Palácio Piratini como governanta e educadora dos filhos do governador Leonel de Moura Brizola. “Onde entre normas rígidas, trabalhei por cinco anos, o que me valeu olhar o mundo com outros olhos”, lembra Irma. “Foi um período difícil, mas muito fértil”. No início dos anos 1960, Irma Lau envolveu-se com a rebelião política, na Campanha da Legalidade, que lutava pela posse de João Goulart como presidente do Brasil, após a renúncia de Jânio Quadros. Tempos de aventura e muita tensão.
Ao longo da sua trajetória, Irma trabalhou em várias obras culturais, entre elas traduções da língua alemã para o português. E suas lembranças sobre os Natais de antigamente são muito vívidas. Nesta entrevista, Irma Lau recorda os acontecimentos festivos do Natal e avalia as diferenças entre os tempos antigos e os dias atuais.

Riovale Jornal (RJ): Dona Irma, como foram seus Natais de infância? Quais as recordações que eles trazem? Era um tempo feliz?
Irma Lau – Os meus Natais de infância foram maravilhosos, e, ao chegar o mês de dezembro, sentia-se com grandes expectativas o chegar de Natal, e este sentimento representou o sentimento mais nobre, comovente e exuberante da minha infância. Ao mesmo tempo exerceu sobre a minha educação um auxiliar extraordinário, pois a presença de Papai Noel interferiu na minha maneira de ser e de sonhar e representou o empenho de um bom comportamento como criança. E cedo já se escolhia a árvore natalina, o pinheiro Araucária e ao mesmo tempo os enfeites natalinos de vidro com uma pintura dourada ou prateada, cordões ao lado do suporte de velas de sebo que já foram juntados para o dia 24/12 para facilitar o trabalho do Papai Noel, a árvore fora colocada num recipiente com água e areia para conservação até o Ano Novo. E oito dias antes já se preparava as bolachas que eram preparadas pela minha mãe, por mim, pela Elfriede e o Werner que ajudávamos desde o começo do preparo. Eram estrelinhas, corações e todas as formas imaginadas. Depois de prontas, eram enfeitadas com merengue e açúcar colorido especial.
Também se fazia cucas e bolos, carneávamos algumas aves para completar o dia de Natal para se tornar um momento agradável em família.
Porém, a maior emoção foi entrar na noite de Natal na sala quando a árvore com as velas acesas, a sinetinha anunciava que o Papai Noel já havia passado e havia deixado embaixo da árvore um único presente de Natal que emocionou a família inteira. O canto de Noite Feliz entoado por todos com o acompanhamento de violão da mãe, violino pelo irmão Almiro e a cítara pela irmã mais velha Ilse, e o canto em três vozes elevou estes momentos natalinos a um elevado momento de emoção, único. E o nosso espírito e coração infantil e a fé em Jesus Cristo elevou-se à altura do Universo! E nós nos sentimos muito felizes com a festa de Natal que representou o dia mais emocionante e feliz da nossa infância!
RJ: Os Natais de antigamente eram muito diferentes dos Natais de hoje? Quais as diferenças?
Irma Lau – Os Natais de antigamente eram bem mais verídicos, emocionantes e naturais, hoje o mundo eletrônico, rádio e televisão e mesmo a alimentação sofreu alterações. O que se quer comer hoje é comprado e mesmo jovem aguardava-se mais de um presente e após a última Guerra Mundial e a descoberta do plástico os objetos e a árvore foram fabricados deste material. Inclusive, a iluminação elétrica e a decoração é de vários materiais e ficar sabendo de que o Papai Noel não era Jesus Cristo foi um choque emocional, se bem que as canções natalinas nos deixavam ainda emocionados, porém a grande diferença emocional é de que tudo se transformou dentre do tempo mesmo que ainda amamos os dias de festa. Porém, a grande diferença está na emoção do verdadeiro e entre o atual em que esta data representa de festejos, presentes, alimentação, o que representa um festejo comercial mesmo que as canções natalinas ainda mostram um ar de sobrevivência. Assim a maior diferença destacamos entre o ato comercial e o verdadeiro emocional, isto é a diferença entre a consciência e o comercial!
RJ: O que o Natal representa para a senhora? A senhora valoriza o sentido religioso e familiar da festa?
Irma Lau – O Natal para mim ainda representa um dia especial entre todos os dias festivos, pois o que se aprende quando jovem sempre deixa uma sombra do ensino e uma análise sobre a transformação individualística do mundo moderno, sempre deixa um traço de sombra na alma, ainda valorizo o Natal festivo com um verdadeiro sentido religioso da minha família, mesmo que o mundo atual tende a se afastar do verdadeiro sentido religioso natalino.
E o rígido crescimento de coisas e saber e recordar tornou improvável a utilização da memória como único instrumento de sabedoria. Toda modificação dos instrumentos culturais se apresentam como uma profunda colocação dos instrumentos em crise do modelo cultural religioso e o seu alcance real somente se manifesta se considerarmos que os novos ensinos e instrumentos agirão no contexto de uma humanidade profundamente modificada, seja pelas causas do modernismo, seja pelo avanço da tecnologia eletrônica. Mas Deus é um só, seja pelas causas ideológicas ou pelo simples ensino!

RJ: Como têm sido os Natais dos últimos anos? A senhora tem passado a festa em família? O que espera para este Natal?
Irma Lau – O Natal dos últimos anos ainda foi em família com presentes, gravações em discos e também em canto com todos os membros da família que ainda vivem, pois muitos já faleceram. Porém o sentimento de Natal ainda existe em minha alma e espírito, e também neste ano penso de mesma ideologia. Somente lamento de que o mundo atual vive em desarmonia enquanto deveríamos nos unir para salvar o nosso planeta da destruição, da poluição ambiental e, ninguém se põe à frente pois em mais uns anos destruiremos o nosso habitat humano!
RJ: Tem alguma história especial dos seus Natais que a senhora queira nos contar? Qual seria essa história?
Irma Lau – A minha história de Natal envolve um besouro de esterco que após os festejos de Natal que já era tarde da noite, felizes com nossos presentes e o lampião apagou no quarto das irmãs, deu um barulho de rastros e a irmã mais nova chamou: “Mamãe, tem alguém no quarto?”. Minha mãe, às pressas, acendeu uma vela e todos nós corremos para ver o que estava acontecendo, e por pavor nosso, uma sandália se movia e se arrastava pelo assoalho. Pasmos ficamos e estarrecidos, mas neste instante a minha irmã mais corajosa levantou a sandália e para alívio de todos encontramos um besouro de esterco como autor destes movimentos e, aliviada, minha mãe pegou um papel e o jogou pela janela! E minha mãe expressou “graças a Deus e que Natal diferente passamos”, o que parecia a mão de Deus querendo nos mostrar de que todos somos a obra dele, o que enriqueceu o nosso sentimento de Natal!
RJ: Qual foi seu Natal mais inesquecível? Conte-nos como foi.
Irma Lau – O meu Natal mais inesquecível foi no Palácio Piratini, quando todos os funcionários e militares ao lado das crianças: Maria Elisa, João Otávio e José Vicente ao lado dos pais Dona Neusa e o governador Leonel de Moura Brizola juntaram as mãos para cantar a bela e consagrada canção ‘Noite Feliz, Noite Feliz’, em seguida o ‘Pai Nosso’ em oração e pediu a Deus a bênção para todos os habitantes do nosso estado e do mundo, pedindo paz, harmonia e o pão de cada dia!
RJ: Como a senhora vê o sentido comercial do Natal? É preciso pensar tanto nos presentes, ou é melhor pensar na essência da festa?
Irma Lau – O sentido comercial de Natal é um resultado da transformação individualística do nosso planeta e da concepção social moderna das conquistas científicas e alterações culturais e ideológicas, visto que ainda hoje com todas as descobertas sobre nosso planeta e também a descoberta de outros planetas que já estão sendo investigados. Porém, o verdadeiro sentido de Natal não são os presentes, mas sim o sentimento verdadeiro da concepção do que representa o sentido real do Natal dos cristãos.














