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Os Reis Magos de Santa Cruz do Sul

LUANA CIECELSKI
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O relógio bate 19h30 quando o grupo composto por cerca de 17 pessoas termina de se arrumar e sobe na van que está estacionada em frente ao CTG Lanceiros de Santa Cruz, no bairro Schultz. Na mão vão os instrumentos musicais e no coração a vontade de levar uma mensagem de paz, esperança e felicidade. Está tendo início mais uma noite de peregrinação por lares santa-cruzenses, mais uma noite de culto à tradição do folclore gaúcho. É mais uma noite de Terno de Reis. 

A van segue pelas ruas da cidade. Ruas já tão percorridas desde 1961, quando a primeira edição do Terno de Reis foi realizada. Nesse tempo, foram muitas as casas pelas quais o grupo já passou e na noite presente mais algumas entrarão para a lista e para a história do grupo. Se tudo correr bem, mais de 10 lares, talvez 14 ou 15, poderão ser visitados. 

Para alguns a visita chega de surpresa. Quer dizer, eles esperam pelos mensageiros todos os anos, mas nunca sabem exatamente em qual dia eles virão ou em que horário, e apesar do cuidado que o grupo tem de não ir tarde demais até os lares, eventualmente alguém é pego já de pijama. Mas esse não é o caso da primeira casa da noite, um lar de idosos no bairro Higienópolis. Sentados na sala, os moradores esperam com ânsia. Eles sabem que o terno está prestes a chegar.

Grupo composto por cerca de 17 pessoas visita mais de 10 lares por noite

Então a van estaciona em frente à casa e o grupo de saias azuis e bombachas cor de creme vai entrando. Passa pelos corredores e quando os primeiros vão chegando à sala uma das funcionárias do local os anuncia. “Pessoal, olha quem chegou!”. Todos se cumprimentam. Os sorrisos se abrem. Ao fundo é possível ouvir os primeiros acordes de um violão tão ansioso quanto os moradores. O grupo se posiciona e se apresenta. “Fazemos esse trabalho de forma voluntária todos os anos. Viemos trazer uma mensagem até vocês”, diz Leila Figueiredo, diretora cultural do CTG Lanceiros de Santa Cruz. Então a cantoria começa. 

São só alguns minutos, mas a emoção nos olhos de quem recebe o terno de reis é a melhor recompensa possível. Aliás, a emoção nos olhos de quem está ali, sendo parte do grupo de terno, também é visível. E intricado nesse gesto, nesse tempo dedicado aos outros e ao culto das tradições, há também a emoção dos grandes tradicionalistas, como é o caso de Paixão Côrtes. Há poucos dias ele escreveu ao blog Estância Virtual falando sobre isso. 

“Aos meus 90 anos, vejo com satisfação que, apesar de o Natal ter sido globalizado com a figura do Papai Noel, ainda seguem a tradição do folclore gaúcho, os Ternos de Reis que anunciam o nascimento do Menino Jesus no ciclo natalino que se estende até a chegada dos Reis Magos, dia 06 de janeiro. A essas vozes da tradição, eu me junto, e fechando uma década de terno virtual, estou chegando novamente em sua morada para tirar reses”, escreveu ele, enviando também, logo abaixo, sua letra de Terno de Reis. 

Lar de Idosos foi um dos locais visitados nessa semana

Mas havia outras casas ainda a serem visitadas naquela noite. Outras residências esperando a mensagem e a tradição baterem em suas portas. Então o grupo entra na van novamente. Nas mãos continuam os instrumentos musicais, mas no coração… A cada nova casa visitada ele se enche da sensação de mais um pequeno grande dever cumprido. A tradição gaúcha e o amor pairam no ar. A vida, então, é um pouco mais leve. Para os que receberam a mensagem e para os que a levaram até alguma casa. 

O QUE É O TERNO DE REIS?

São chamadas assim as canções, ou os pequenos grupos de músicos que as realizam, que têm como referência a história bíblica dos Três Reis Magos e sua chegada ao lugar onde se encontrava o menino Jesus. Elas mantêm uma tradição de origem portuguesa relacionada a essa história bíblica e são uma tradição também do folclore gaúcho. 

Tradicionalmente, esses grupos percorrem as casas de suas comunidades desde o dia 25 de dezembro até a véspera do dia 6 de janeiro, data em que se comemora mais amplamente o Dia de Reis. Em Santa Cruz do Sul, através do CTG Lanceiros de Santa Cruz, essas visitas acontecem há mais de cinco décadas entre os dias 26 de dezembro e 6 de janeiro, com pausa apenas no dia 31. A última casa a ser visitada é sempre a do Patrão do CTG. 

Nesse período são visitados amigos e sócios do centro de tradições, além de pessoas que pedem a visita. Conforme explica Leila, algumas famílias agendam de um ano pra outro há várias décadas. “Às vezes os familiares mais idosos, aqueles que pediram o terno pela primeira vez até já faleceram, mas os filhos e netos continuam pedindo a nossa visita”, conta Leila. Nada impede também que uma família entre em contato com o CTG durante o ano e faça o pedido pela primeira vez. 

É costume oferecer algo aos integrantes do Terno de Reis. Alguns oferecem o jantar, a grande maioria, porém, oferece algum valor ao grupo. Nesses casos, o dinheiro recebido é destinado ao CTG e sua manutenção. O apoio financeiro e emocional, o pedido pela ido do Terno de Reis e o carinho com que o grupo é recebido, aponta Leila, é fundamental para a manutenção da tradição.