LUANA CIECELSKI
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O desejo de conhecer o famoso Santuário de Schoenstatt na Alemanha uniu quatro amigos santa-cruzenses em uma viagem de 15 dias que aconteceu no último mês de junho. Esse fato não seria tão fora do comum se junto com a bagagem deles não houvesse dezenas de revistas de Santa Cruz do Sul e CDs de bandas locais com as tradicionais bandinhas. Essas revistas e CDs, juntos com os quatro amigos, percorreram várias cidades, passaram pelas mãos de diversos alemães e muitas delas, inclusive ficaram com eles. Elas levaram ao povo que colonizou Santa Cruz, uma amostra de como Santa Cruz é hoje.
Fotos Divulgação/Arquivo pessoal

Brasileiros mostraram as revistas santa-cruzenses como a Santa Cruz em Números para os alemães
Os quatro amigos são Paulo Kist, Fernando Pires, Jorge Kothe e Airton Poll. Todos pertencem ao grupo de homens de Schoenstatt e há muitos anos vinham alimentando o desejo de conhecer o Santuário que deu origem ao movimento mundial, e que tem uma filial também em Santa Cruz do Sul. Nesse ano eles decidiram que iriam, juntos, apenas os quatro, numa espécie de aventura. Entraram em contato com uma agência de viagens onde acertaram as passagens e o aluguel de um carro para circular pela Alemanha. A hospedagem eles veriam conforme chegassem em cada uma das cidades.

Paulo, Airton, Jorge e Fernando na Catedral de Colônia
No roteiro estava a passagem por diversas localidades. Por ser a Alemanha um país pequeno – é mais ou menos do tamanho do Mato Grosso do Sul. – a ideia era percorrer tanta distância quanto possível. Mas certo mesmo era a descida em Frankfurt (a maior cidade alemã) e a passagem em Vallendar, próximo de Coblença, onde está instalada o Santuário de Schoenstatt original. Na mala, o grupo separou algumas roupas para o verão alemão que depois se mostrou surpreendentemente frio para os quatro companheiros.
Antes de embarcar, no entanto, Fernando teve uma ideia: levar revistas daqui para mostrar aos de lá. Os demais gostaram, principalmente Paulo que já havia estado na Alemanha em duas ocasiões anteriores. “Quando eu estive lá, muitas pessoas me questionaram como um brasileiro falava tão bem o alemão. Eu explicava que era de Santa Cruz e que nós havíamos sido colonizados por alemães, mas eu não tinha como mostrar isso melhor. Levando as revistas a gente pôde fazer isso”, explicou ele.
Algumas revistas foram então buscadas na sede da Associação das Entidades Empresariais (Assemp), outras foram levadas até Paulo (em sua loja, a Bom Sono Colchões) pelo vereador Elo Schneider que soube da procura do grupo pelos materiais para levar na viagem. Entre as revistas selecionadas estava a “Santa Cruz em Números 2014”, produzida e editada pelo Riovale Jornal desde 2005.

Airton, Jorge, Paulo e Fernando descansando nos Alpes Bávaros,
no Sul da Alemanha, a uma altitude de 2962 metros
Alemães ficaram interessados
Já no país germânico, além de Frankfurt e Vallendar, o grupo também passou por cidades como Colônia, Trier, que é considerada uma das mais antigas da Alemanha com prédios do império romano, Munique, Schrobenhausen e seu entorno, e também pela região de Schwagalp, conhecida pela beleza de seus castelos. Outros locais visitados foram a cidade de Menhelts, a montanha Zugspitze, o pico mais alto da Alemanha e o grande lago Bodensee que faz divisa com a Áustria e a Suíça.
Em Frankfurt, o grupo se hospedou em um hotel, no entanto, em Vallendar, o grupo ficou em uma casa que comumente aluga quartos para pessoas que vão até lá em peregrinação ou para grupos de empresas que estejam fazendo treinamentos. Foi justamente o que aconteceu quando o grupo estava lá. “Nos cinco dias em que ficamos hospedados lá, nós vimos três turmas fazerem treinamento”, explicou. Foi para um desses grupos que Paulo e os amigos mostraram pela primeira vez as revistas de Santa Cruz.
“Numa noite eu fui conversar com eles e como eu tinha as revistas junto, eu resolvi mostrá-las. Todos eles ficaram muito interessados”, disse. Foi também através das revistas levadas na mala que Paulo explicou de onde vinham os cigarros que eles tanto fumavam. “Como fuma esse povo! Acho que uns 80% daqueles homens fumavam”, comentou.
Nas demais cidades, os amigos foram acolhidos em pousadas e casas de famílias, entre elas a família Schaefer, a família Fischer e a família Hellmich. A essas famílias o grupo também pôde apresentar com calma as revistas de Santa Cruz do Sul, assim como os CDs de bandinhas e também o DVD do Coral de Vera Cruz. A partir dessa apresentação da cultura santa-cruzense, os Hellmich que já pretendiam vir para o Brasil, decidiram que em 2017 virão visitar a “santinha”.

Almoço com Família Hellmich e duas senhoras inglesas
Recepção e mais viagens em breve
Agora, Paulo se prepara para recepcionar os Hellmich e para mostrar a eles o que a região tem de mais bonito. No entanto, também está se preparando para voltar à Alemanha em breve. “Nós quatro pretendemos voltar lá dentro de três ou quatro anos. E dessa vez pretendemos levar nossas famílias também”, explicou.
Quanto às revistas? Elas provavelmente também voltarão à Alemanha dentro da bagagem, para levar mais uma vez ao povo que colonizou Santa Cruz, uma amostra de como Santa Cruz é hoje.
– Por ser verão os dias foram todos muito longos com sol se pondo por volta das 22 horas;
– A comunicação também surpreendeu o grupo. Apesar do dialeto falado em Santa Cruz ser bastante diferente do alemão oficial, em muitas localidades da Alemanha é possível manter um diálogo utilizando apenas ele;
– Lá, as pessoas tem arraigado o hábito de andar de bicicleta. Ela é um importante veículo;
– Lá tudo é asfaltado, mesmo nas menores cidades;
– Mesmo os menores vilarejos possuem locais de informações turísticas. Isso, segundo Paulo, é algo que faz muita falta no Brasil e na região;
– Diferentemente do que ouviram antes de embarcar (que os europeus e principalmente os alemães eram grosseiros), a população das cidades pelas quais o grupo passou foi muito receptiva e calorosa;
– Por terem uma cultura intercambista muitas famílias costumam ter partes da casa ou outros locais reservados paraabrigar viajantes, como fizeram com eles;
– Paulo se surpreendeu com o fato de que alemães não comem cuca com linguiça como os santa-cruzenses comem aqui. Em uma noite, ao pedir de janta o “prato típico”, a garçonete lhe trouxe primeiro a cuca e explicou que só traria a linguiça depois que ele comesse todo o prato doce, porque misturar os dois “não combina”.
Jamais esquecer para jamais repetir
Um dos momentos que mais chamou a atenção do grupo foi o passeio ao Campo de Concentração de Dachau (pronuncia-se “Darau”), que fica próximo a cidade de Dachau e a cinco quilômetros de Munique. A escolha por ir até o local se deu, porque o fundador do Movimento de Schoenstatt, o padre José Kentenich ficou detido naquele local por vários anos. “Ele se deu conta de que aquilo que os nazistas estavam fazendo não era correto e começou a lutar – através de seminários – contra aquelas ideia. Logo em seguida a Gestapo* o capturou”, explicou Paulo.
Quem os levou até o campo de concentração foi um senhor que os quatro viajantes conheceram quando estavam em Schrobenhausen. Esse homem, já aposentado, se especializou na história de Dachau e os guiou por dentro da cidadela que foi a prisão. Para todos eles, a experiência foi única. “A gente olha aquilo lá hoje, tudo tão bonito, cheio de árvores em volta, mas ao mesmo tempo tu vê que aquilo ali foi uma obra do mal”, relata.
No local, enquanto caminhavam por antigas celas, dormitórios, crematório, sanitários, eles encontraram diversos grupos de estudantes universitários com seus professores que também vão até o local para aprender a história. “O que se percebeu lá, com tudo isso, é que o povo alemão quer mostrar que aquilo ali não faz parte do que é ser alemão, tanto é que apenas pessoas autorizadas podem fazer esse serviço de guia. Eles têm muito medo das formas como essa história pode ser contada.Eles querem mostrar para o mundo que foi um homem que fez aquelas atrocidades e que o povo foi enganado, mais ou menos como nós somos muitas vezes enganados pelos nossos políticos”, explicou.
Ainda sobre o padre Kentenich, mesmo de dentro do Campo de Concentração ele encontrou uma maneira de ditar cartas e se comunicar com o mundo. Ele chegou a ser punido por isso, com prisão na solitária, no entanto, saiu de lá vivo. Ao ser libertado, o padre ainda foi exilado para os Estados Unidos por 15 anos, de onde continuou a trabalhar em prol de Schoenstatt. Ele só voltou para a Alemanha em 1965 e faleceu três anos depois, em 15 de setembro de 1968.
*Gestapo era a polícia secreta do governo de Hitler














