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Redação do Enem gera polêmica

Jéssica Ferreira
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Neste último domingo (25), mais de sete milhões de pessoas, dentre elas homens e mulheres de todas as idades, tiveram que parar tudo e pensar sobre a violência contra a mulher no país. Isto é, a redação da prova do Exame Nacional de Ensino Médio (Enem), executada na tarde deste domingo, trouxe como tema “a persistência da violência contra a mulher na sociedade brasileira”.
Para desenvolver o texto do tipo dissertativo-argumentativo, o candidato tinha quatro conteúdos de apoio. Um deles era um cartaz de uma campanha contra o feminicídio. Também havia um gráfico com dados sobre o tipo de violência cometida contra mulheres, baseado em informações do Disque 180, da Secretaria de Políticas para as Mulheres. Também havia uma reportagem que abordava o impacto da Lei da Maria da Penha e dados estatísticos do Mapa da Violência.
Entretanto, após a realização da prova, inúmeros comentários surgiram nas redes sociais sobre o tema. Houve aqueles que defenderam a abordagem do mesmo, porém, em contrapartida houve também aqueles que fizeram críticas. Estes comentários repercutiram pelo país todo e no dia seguinte mesmo, segunda-feira (26), tornaram-se uma polêmica, onde até políticos se envolveram questionando o Ministério da Educação sobre a proposta do tema.
Foram diversos os internautas que publicaram seus questionamentos contrários à escolha do tema devido ao viés feminista. Além disso, houve muitos comentários afirmando que a abordagem estava “doutrinando” a população brasileira. Porém, ao contrário dos que se declaram insatisfeitos com o tema, a grande maioria se mostrou satisfeito devido ao assunto infelizmente não ser apenas envolvido numa escrita de redação, ou seja, houve reflexões sobre milhares se situações que ocorrem em relação à violência contra a mulher no país. 
Com base nestes comentários positivos e até mesmo críticas, o Riovale Jornal buscou entender a opinião de alguns santa-cruzenses que realizarão o exame neste último final de semana. Dos entrevistados, todos se declaram satisfeitos com o tema da redação e, além disso, cada um teve que buscar entender o lado de quem sofre a violência se colocando na situação do mesmo.

Thamires Rodrigues Bispo – 18 anos, Estudante do Ensino Médio:

“O tema foi muito bom, pois foi possível ter bons argumentos pelo fato de ser um assunto polêmico e atual. Querendo ou não, houve uma reflexão mesmo que inconsciente de muitos que fizeram a prova, pois o tema praticamente obrigou os candidatos a se opor em relação à violência contra a mulher no Brasil. E, além disso, era necessário também na conclusão, pensar uma solução para este problema, o que permitiu com que a gente perceba que precisamos mudar sim coisas no nosso cotidiano e nossa vida, para que essa situação seja transformada.”

Viviana da Silva Ramos – 17 anos, Estagiária e Estudante do Ensino Médio: 

“Achei um exagero essa polêmica toda. O tema foi muito interessante, pois é uma realidade bem presente. De primeira tive dificuldade em elaborar meu texto, mas passei a pensar sobre o assunto e a situação toda que ele envolve. Pensei principalmente nas mulheres que são violentadas me colocando no lugar delas.”

 

Fernando Lima – 57 anos, Gestor Ambiental

“O fato de ser abordado um tema atual e ter sido considerado por alguns como tendencioso, acho que chegou em boa hora, principalmente por, de uma maneira ou outra, estimular a reflexão sobre o tema violência contra a Mulher. Muito se fala, porém, pouco se faz – ou seja, nem tudo que se escreve se pratica. As pessoas estão assimilando o modo de vida “rede social”, ou seja nela tudo é possível, publica-se politicamente correto mas age-se ao contrário. Não vivemos em tempos de Malleus Maleficarum, onde se doutrinava contra mulheres de pensamento liberal, mas a violência muitas vezes vem disfarçada de discriminação. Negar a existência desta violência quando a mesma vira tema de redação de Enem  e até mesmo cita-se feminista em questões do mesmo concurso, é tão falso como dizer que a Lei Maria da Penha não se faz necessária.”

 

Francine de Mello – 30 anos, Dona de Casa:

“Foi um tema tranquilo. Não precisava outro, pois ele realmente me fez refletir sobre a violência contra a mulher, até mesmo porque existem vários tipos de violência além da física, como verbal e sexual dentro de suas casas ou nas ruas e, por alguma razão, as vítimas acabam não denunciando o parceiro devido a inúmeros motivos psicológicos, sentimentais e até mesmo por não serem protegidas e infelizmente perderem a vida por negligência de quem deveria protegê-las.”

Violência contra a mulher “não é algo simples de ser resolvido”

Além dos candidatos entrevistados, a redação do Riovale Jornal procurou também conversar com a delegada titular da 1ª Delegacia de Polícia (DP) de Santa Cruz do Sul, Ana Luísa Aita Pippi, que atualmente está substituindo por uns dias a delegada responsável na Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher (Deam).
A crítica sobre o tema também foi rejeitada pela delegada Ana Luísa, ou seja, ao contrário dos insatisfeitos com o tema, para a delegada, ele proporcionou uma reflexão sobre o que tem acontecido todos os dias com mulheres brasileiras, pois são poucas que conseguem se libertar dessa situação de violência. 
“É um longo processo, há muitas marcas envolvidas com essas mulheres. Existem aquelas que estão há anos com seu parceiro, têm filhos pequenos e a situação financeira e econômica é baixa. Há também casos em que existe medo ou sentimento em volta da situação. Não é algo simples de ser resolvido. Muitos são os casos em que as mulheres levam anos para pedir ajuda e sair desse ciclo afetivo – pois envolve muito mais do que uma decisão, onde na maioria das vezes a situação não facilita para que elas venham a reagir”, disse.
Segundo o Inep, sobre a construção da redação, os participantes devem defender uma tese – uma opinião – a respeito do tema proposto, apoiada em argumentos consistentes, estruturados de forma coerente e coesa, de modo a formar uma unidade textual. 
“O tema foi ao encontro do estilo do Enem, em trabalhar uma questão social e, assim, trazer uma reflexão dos candidatos. Talvez alguns não tenham se preparado, debatido o assunto nas salas de aula ou até em cursinhos – mas houve os que abordaram –, o que também foi algo positivo. Embora a Lei Maria da Penha já exista há algum tempo e vem sendo posta em vigor pela polícia e justiça, ainda é uma questão que deve ser debatida não somente no nosso meio, como principalmente nas escolas com os jovens, pois acredito que só vamos conseguir minimizar esse tipo de violência quando tratarmos na educação”, acrescentou.

Jéssica Ferreira

Delegada Ana Luísa Aita Pippi: “O tema foi ao encontro do estilo do Enem”

 

 

Ministro faz avaliação positiva

O Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) ocorreu nos dias 24 e 25 de outubro (sábado e domingo). Cerca de 7,7 milhões de candidatos fizeram as provas durante o final de semana. Em nota o ministro da Educação, Aloizio Mercadante, fez uma avaliação positiva em relação à edição deste ano do Enem. Segundo ele, “fazer um exame desta dimensão é um grande avanço para a educação brasileira”.
O percentual de abstenções nesta edição do Enem, de 25,5%, foi o menor da série histórica do exame. Nos dois dias de provas, foram eliminados 743 participantes, menos da metade dos 1.519 excluídos do certame em 2014. Apenas três ocorreram por postagem de imagens do local de provas em redes socais.
Além disso, o ministro elogiou a escolha do tema “A Persistência da Violência contra a Mulher na Sociedade Brasileira” para a redação. “O tema da redação foi de muita relevância para a cultura do Brasil”, destacou. “Ajuda na reflexão para 7 milhões de participantes sobre o tema. Se conseguirmos discutir com transparência, será um grande avanço para a sociedade brasileira.”
Os gabaritos oficiais do Enem serão divulgados nesta quarta-feira, 28. As provas do exame, em formato digital, estarão disponíveis a partir da sexta-feira, 30, na página do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep) na internet.