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Sementes de esperança

Ir.Teresa Paula*

Lembrei-me de uma velha amiga, a Maria Inês, ao pincelar os olhos nas notícias do jornal, antes do recreio diário, depois do jantar. A outrora vizinha, na Rua Costa Carvalho, Sampa, nasceu durante as comemorações dos 400 anos de nossa cidade. –Onde andará ela? Nooossa; sessenta anos, quase, já deve ser avó!… 

Em cada informação, parece que contemplo slides destrambelhados numa enorme tela. Mais de cinco dezenas de linhas de ônibus em greve na capital paulista… O sindicato dos metalúrgicos aponta a imensa fila de trabalhadores sem emprego… Quem diria, o Walmor Chagas,82, deu um basta na própria existência, confirma o laudo… Ingressou no mundo dos Viventes na mesma época de Michael Winner, 77, o diretor de cinema inglês… Contemporâneos, aplaudidos, competentes, durante décadas na mídia… Por falar em morte, tinha acabado de ler uma crônica de Arnaldo Jabor a respeito da senhora do alfanje. Lamento o pessimismo do brilhante jornalista setentão, a etapa de vida que Milton Nascimento acaba de conquistar… Reparto um trechinho do texto publicado terça-feira, 22, no “Estado” online:  “A morte só tem “antes”, não tem “depois” – no Ivan Ilitch, do Tolstoi, quando ela chega, acaba o conto… A morte não está nem aí para nós; ela tem “vida própria”. A gente vai para um lado, o corpo para o outro. Ela nos ignora, nossos méritos, nossas obras…. Pois é; há muitos anos, pegou fogo no edifício Joelma em São Paulo, torrando dezenas de infelizes. Do prédio em frente, as teleobjetivas fotografaram todas as agonias. Até hoje, lembro-me da foto em cores de um homem de terno, pastinha 007, agachado numa janela do 20.º andar, com o fogo às costas. Seu rosto mostrava a dúvida: “O que é melhor para mim? Morrer queimado ou me jogar?” Ele curtiu até o fim – e se jogou…”   

Lembro-me do triste incêndio na Avenida Nove de Julho. Todo paulistano se recorda da tragédia, em fevereiro de 1974. Exultamo-nos por aqueles que não mergulharam no desespero. Que se abrigaram sob as telhas de amianto e esperaram. E sobreviveram.  Walmor (que tristeza) e Winner atingiram o fim ou o começo – (para os que creem) – no mês dos aniversários das fundações de Sampa e da Cidade Maravilhosa de Arnaldo Jabor: em ritmo frenético na preparação da Jornada Mundial da Juventude, agora em julho. Aqui, em casa, rezamos para que tudo dê certo. A humanidade precisa de uma resposta contra a espada de Dâmocles sobre a cabeça dos mortais: a morte-ponto-final-que acaba- tudo. Precisa de Algo Além, que chamo de Infinita Surpresa, a fonte da Esperança: a irmãzinha da Fé e do Amor.  Abre caminho para as Manas maiores que, segundo Péguy, o poeta, sem a Caçula, não passariam de duas anciãs entrevadas. Cabe à mocidade do planeta conduzi-la tal qual a tocha de fogo olímpica. “Esperando esperei no Senhor”, diz o salmista (Sl.39).

São Paulo de Piratininga é  onde pela primeira vez contemplei a luz, no rosto bonito de D. Cleofe.  A genialidade baiana do filho de D. Canô Veloso rebatizou nossa aldeota do pátio do Colégio dos jesuítas pelo nome de Sampa. Viva Caetano! Prefiro assim; que me perdoe o meu, também, grande patrono apóstolo das Nações, Paulo, cuja conversão é celebrada, pela liturgia, aos 25 de janeiro. Em 1997, nesta data, foi erigido canonicamente o Mosteiro da Santíssima Trindade. Há dezesseis anos lançaram-se sementes de esperança na querência de Santa Cruz. O tempo nos tem presenteado com frutos alvissareiros. A terra do sul é ótima, graças a Deus. 

*Monja do Mosteiro da Santíssima Trindade