Everson Boeck
[email protected]
Uma grande investigação da Delegacia Especializada no Atendimento à Mulher (Deam) em conjunto com a Polícia Civil e Brigada Militar revelou que o suposto assassino da jovem Leodete Aparecida da Silva, em crime ocorrido dia 30 de novembro, é o mesmo que matou Ana Paula Sulzbacher, em dezembro de 2012, quando ela foi estuprada e seu corpo jogado do alto do morro do Parque da Cruz. A polícia chegou ao autor dos crimes depois de realizar intensas e incansáveis diligências que permitiram descobrir, através de imagens de câmeras de segurança, o veículo que era utilizado pelo criminoso. Ele está preso e, após concluir o inquérito, a Deam fez representação solicitando a prisão preventiva do acusado, que não pode ter a identidade revelada por se tratar de crimes que envolvem violência sexual e que, segundo a lei, não permite que os nomes das partes sejam divulgados. Ele está sendo acusado por estupro e homicídio duplamente qualificado.
De acordo com a titular da Deam, delegada Lisandra de Castro de Carvalho, este é um caso histórico no município. “Nunca havíamos nos deparado com uma situação assim. Ele foi meticuloso e frio, tem características claras de psicopatia”, informa a delegada. “Ninguém jamais imaginaria que ele é um assassino. De boa aparência, atraente, sedutor, usa roupas de grife. No entanto, é um mentiroso compulsivo, insistente e não suporta rejeição”, revela.
CÂMERAS DE SEGURANÇA
A principal pista que a polícia tinha a respeito da morte de Leodete, de 35 anos, era um carro ingressando na Rua Sete de Setembro alguns minutos depois de a vítima deixar a boate.
Relembre – Segundo a Deam, Leodete havia saído de casa na sexta-feira acompanhada de uma amiga para irem juntas a uma casa noturna situada na Rua Sete de Setembro, próxima à igreja evangélica. Esta seria a primeira vez de Leodete no estabelecimento, no entanto, a amiga já frequentava o lugar e a teria convidado para conhecer o ambiente. No local, ela dançou com um homem com o qual, por volta de 3h30, teria saído – quando foi vista pela última vez. No entanto, após ouvir o suspeito, que possuía um álibi, a polícia o excluiu totalmente da cena do crime.
As imagens das câmeras de segurança da Rua São José mostravam um carro entrando na rua sem saída, por volta das 4h, e 20 minutos depois retornando (subindo em direção ao Centro) em alta velocidade e com os faróis desligados sem, inclusive, parar no cruzamento, já que estaria atravessando uma preferencial. “Ele estava em nítida atitude de fuga”, relata a delegada. Depois o veículo não foi mais registrado por aquela câmera.
Como as imagens do carro não eram claras, a polícia teve a ajuda de um especialista da Volkswagen para descobrir qual era o automóvel utilizado. Pelas características, sabia-se que era um Gol de cor escura metalizada, aros esportivos, possuía película nos vidros, engate para reboque e um adesivo no vidro traseiro. Assim, o especialista constatou que se tratava de um Gol modelo 88/90.
CARRO FOI CHAVE DO CASO
De posse dessas informações, a Polícia iniciou as buscas em Santa Cruz do Sul e região. Na cidade, existem mais de 150 Gols semelhantes e todos os foram examinados pela Deam e alguns endereços visitados. Em uma das diligências realizadas pelos policiais, na noite de 20 de dezembro, o veículo foi encontrado próximo à boate onde Leodete foi vista pela última vez. “Ao pesquisar a placa descobrimos que se tratava de um Gol ano 88 cujo proprietário era morador de Sapucaia do Sul, mas ele havia vendido o veículo e não possuía nenhum vínculo com Santa Cruz do Sul. ou seja, descobrimos que o carro foi repassado várias vezes, mas continua em nome daquele proprietário de Sapucaia”, conta Lisandra. A partir daí o automóvel passou a ser monitorado.
Ao mesmo tempo, a polícia começou a investigar sobre possíveis testemunhas que já pudessem ter visto o veículo anteriormente. “Recebemos informações de que o acusado já frequentava o local e, na noite em que Leodete foi assassinada, havia um indivíduo se comportando de maneira inconveniente, investindo nas mulheres em geral e se vangloriando que ‘estava motorizado’. Além disso, obtivemos diversas características físicas dele: um homem de 23 anos, bem apresentável, com um bom porte físico, entre outros detalhes específicos que nos fizeram chegar à identidade do indivíduo”, observa a delegada. Depois disso foi que Deam identificou o suspeito e descobriu que se tratava do mesmo acusado da morte de Ana Paula.
Fotos: Divulgação/Deam
Imagem utilizada pela polícia do veículo na data em ocorreu o fato foi a
principal pista para desvendar o caso
SEGUNDO CAMINHO E A APREENSÃO DO VEÍCULO
Nas imagens que a Polícia já possuía não havia registro de que o Gol havia retornado ao local. No entanto, uma testemunha havia se aproximado a pé do local por volta das 5h e não havia percebido qualquer sinal de fogo ou fumaça. Outra testemunha, às 5h30, ou seja, meia hora depois, encontrou o corpo de Leodete. Para a Polícia, neste meio tempo é que o autor do crime retornou ao local e ateou fogo na vítima, ainda viva. “Descobrimos outra câmera de segurança em outro cruzamento da Rua São José e ficamos surpresos ao identificar o mesmo carro, às 4h58, entrando por outra rua para tentar chegar ao local do crime por outro caminho. Por pouco a testemunha não presenciou o carro retornando”, afirma Lisandra.
Como os documentos do veículo estavam vencidos, a Deam elaborou com a Brigada Militar uma forma de fazer com que o automóvel fosse apreendido. No dia 8 de janeiro, após sair da boate onde Leodete foi vista pela última vez, o acusado foi abordado em uma blitz da BM dirigindo o mesmo Gol, que foi apreendido. Ele estava acompanhado pela amiga da vítima, a mesma pessoa com quem Leodete havia ido à boate na noite da sua morte. A partir desta testemunha a polícia conseguiu obter mais informações sobre o acusado e a forma como o crime aconteceu. “Assim como ocorreu com Leodete, foi com esta mulher, a amiga dela. Ele a abordou na rua após o término do evento no estabelecimento, onde não havia ninguém por perto; a mulher havia ingerido bebida alcoólica, portanto mais suscetível, ele parou o carro e ofereceu uma carona”, revela a titular da Deam.
Com o veículo, a Polícia refez o caminho, nos mesmos horários e, comparando com as imagens originais, constatou que se tratava do mesmo carro. “Todas as características fecham. É o mesmo automóvel sem sombra de dúvida”, confirma Lisandra. “Além disso, descobrimos que ele adquiriu o Gol no dia 29 de novembro, ou seja, um dia antes do crime”, acrescenta.
PERSONALIDADE DO AUTOR
Nos depoimentos realizados com o indiciado, ele negou praticamente todas as suspeitas e afirmações da Polícia. A Deam apurou, no entanto, que ele já conhecia Leodete, visto que já haviam se encontrado outras vezes – informação negada por ele. Ele também negou que no dia da morte da vítima esteve na boate onde testemunhas a viram na companhia dele, bem como ter assediando outras frequentadoras e garçonetes. Além disso, mesmo tendo sido abordado por policiais da Brigada Militar, o acusado negou possuir qualquer veículo e disse jamais ter dirigido um Gol.
Natural de Vera Cruz, ele reside há anos em Santa Cruz do Sul. Para a polícia, é um homem persuasivo e inteligente. “É uma pessoa que tem um poder de convencimento grande e, naturalmente, consegue manipular, principalmente uma mulher para acompanhá-lo”, afirma Lisandra. “Ele é um indivíduo violento e que não aceita qualquer tipo de rejeição, ou não admite que qualquer coisa saia do seu controle. Em ambos os crimes há indícios de luta corporal. As duas vítimas estavam despidas da cintura para baixo. Depois que ele cometeu estupro tentou destruir a maior prova do crime, ou seja, o corpo da vítima. Felizmente no caso da Ana Paula o corpo não se destruiu ao ser jogado do penhasco, e, da Leodete, alguém impediu que as chamas se propagassem”, explica.
Divulgação/Deam
Leodete foi morta carbonizada na madrugada de 30 de
novembro, no final da Rua Sete de Setembro














