
Felipe Gustsac
Quando criança não imaginava ser professor. A cultura de minha família estava distante desse mundo no qual a escola era uma possibilidade de estudo e muito menos de vida profissional. Éramos pequenos agricultores no município de Massaranduba, no interior de Santa Catarina, e as condições que eu, meus irmãos e irmãs tínhamos para estudar eram mínimas, talvez precárias. Mas, mesmo com poucas roupas, calçados e materiais, nós fomos à escola. Duas de minhas quatro irmãs concluíram a quarta série. As outras duas não chegaram à escola, pois foram acometidas de doenças comuns, curáveis, que não foram, todavia, curadas e assim a Marisha e a Verônica acabaram incrementando os altos índices de ‘mortalidade infantil’, da época. Dois dos meus cinco irmãos desistiram de estudar após reprovarem; um na segunda e outro na terceira série. Os outros dois, assim como eu, concluíram as quatro séries iniciais. Essa escola ficava a uns dois quilômetros de nossa casa e nosso meio de transporte era a caminhada. Terminada a quarta série, parei de estudar por quatro anos, porque não tínhamos condições financeiras para que eu pudesse frequentar as séries restantes do ensino fundamental – 5ª a 8ª – na escola do centro da cidade, que distava 15 kms de onde eu morava.
Assumi a ‘condição de professor’ aos dezoito anos (1978), substituindo uma professora de Língua Portuguesa para as turmas da 5ª à 8ª série, na mesma escola, agora transformada em escola de ensino fundamental completo, em que terminei a quarta série. Isso, entre outras razões, levou-me a largar o curso do Ensino Médio em Contabilidade e Custos para assumir o de Magistério. Dez anos depois (1988) eu terminava minha graduação em Letras na Universidade Federal de Santa Catarina – UFSC. E, dez anos mais tarde, terminei o Curso de Mestrado em Educação na Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS, onde, cinco anos mais tarde (2003) terminei meu doutorado em Educação.
Tornar-se professor, no entanto, talvez seja algo contra o que mais tenho lutado. Eu quero mesmo, e acho que sempre quis, é tornar-me um educador, um docente, um sábio da educação sem deixar de trabalhar na educação. Ou seja, luto contra a ideia dominante de ser professor como aquele profissional que vai para uma sala de aula para professar o que sabe. Sim. Eu também professo. Um docente, um educador também professa. Mas professar não é tudo e nem a principal atividade da profissão professor. Aquele professor que só professa não alcança a condição de ser um educador, um docente, porque nem terá tempo para isso, ocupado que vai estar em estudar e preparar ‘conteúdos’ para levar para seus alunos. Sim, um professor trabalha com conteúdos. Um docente, um educador, um pedagogo trabalha com as aprendizagens das pessoas.
Paulo Freire nos ensinou que “Ninguém educa ninguém, ninguém se educa a si mesmo, os homens se educam entre si, mediatizados pelo mundo.” (1991, p. 79). Por isso, penso que o importante em ser um professor não é estar na sala de aula cheio de conteúdos para serem ‘ensinados’ aos alunos. Mas, o importante é estar na sala de aula para ‘educar-se’ em parceria com aqueles que vêm e que já conhecem muitas coisas, e desejam conhecer mais. Porque é do humano esse desejo legítimo de querer ‘ser-mais’, de buscar a completude sabendo-se, sempre, incompleto. E a satisfação deste desejo é algo muito simples, ainda que seja efetivamente complexo. Trata-se de ter a satisfação de saber-se mais do que era um segundo antes. Aí reside uma das maiores alegrias da vida do ser humano: perceber que agora sabe mais do que sabia há pouco. Nisso investem os pedagogos, os educadores e os docentes. Em levar conteúdos para a escola que sejam do interesse daquele ser humano que lá vai estar, costurados com os conteúdos necessários àquele nível de formação. Ao contrário do professor, que vai levar para a escola apenas os conteúdos que são do seu interesse para aquele nível de formação.
Tornar-se professor é, assim, tornar-se mais humano. Edgar Morin (2001) diz que aqueles que trabalham na Educação precisam aprender a aprender e precisam ensinar a ‘condição humana’ no mundo. E, pensando acerca dessa condição humana no mundo, Hannah Arendt (1990, p. 223) vem nos dizer que “A essência da educação é a natalidade”. E, assim, aos educadores cabe acolher as crianças, acolher aos que vêm à escola ao mundo, mas ainda não conhecem tudo.
Tornar-se professor é uma tarefa para quem gosta de pessoas e de saberes, de ideias, de pensar. Não deveria ser tarefa, e muito menos profissão, para quem gosta somente de conteúdos. É isso que penso, depois desses mais de trinta anos de profissão. Mas, é preciso confessar que já trabalhei muito conteúdo para aprender isso.
Hoje sou professor nas disciplinas de Pesquisa em Educação e Linguagem Oral e Escrita na Educação, trabalhando nos cursos de Pedagogia e do Mestrado em Educação da UNISC.
Referências
FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. 9 ed., Rio de Janeiro. Editora Paz e Terra. 1981.
ARENDT, Hannah. Entre o passado e o futuro. São Paulo, Perspectiva, 1990.
MORIN, Edgar. Os sete Saberes Necessários à Educação do Futuro 3a.ed. – São Paulo – Cortez; Brasília, DF: UNESCO, 2001.














