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“Tornou-se um ambiente desolador”, diz médica que trabalha na ala Covid do Hospital Santa Cruz

Pacientes com mais chances de sobrevivência já ganham preferência para um leito de UTI

Ricardo Gais
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No próximo mês, Santa Cruz do Sul completará um ano do primeiro caso de residente acometido com Covid-19 – caso importado de Santa Catarina. Desde então, assim como no restante do País, o Município vem enfrentando o expressivo aumento de casos positivos. Com isso, o trabalho dos profissionais que atuam na linha de frente da pandemia ficou sobrecarregado devido à lotação dos leitos de UTIs. Além de lutar contra o vírus, os profissionais também enfrentam o cansaço físico e emocional no dia a dia, mas a luta por salvar vidas os motiva a cada turno que se inicia.

A médica intensivista Amanda Dias Lima Morais, que trabalha dentro da Ala Covid no Hospital Santa Cruz, desde o início da pandemia no Estado, conta que antes do agravamento do novo coronavírus, ela e seus colegas atendiam cerca de 17 pacientes em estado grave, mas, atualmente, esse número saltou para 50 pacientes. Em média, outras 50 pessoas na região aguardam para conseguir um leito de UTI.

Amanda atua na ala Covid desde o início da pandemia no Estado. – Foto: Arquivo pessoal



Atualmente, cerca de 75% dos profissionais que atuam na assistência (atendimento aos pacientes) estão trabalhando diretamente nas unidades Covid. “Nossa formação nos prepara para trabalhar diariamente na tênue linha entre a vida e a morte. Porém, trabalhar em um cenário de pandemia, com uma doença totalmente nova e ameaçadora gera uma sobrecarga física e emocional muito grande. Tornou-se um ambiente desolador a partir do momento em que o familiar não pôde mais ter acesso ao interior da UTI e as famílias tiveram de ser separadas, muitas vezes sem a possibilidade de um último abraço”, relata a médica.

Nas últimas semanas, os profissionais de saúde estão acompanhando a lotação da UTIs em todo o Rio Grande do Sul e, segundo a médica, os dias estão sendo uma corrida pela vida. “Precisamos otimizar ao máximo os tratamentos para haver rotatividade nos leitos, pois há uma lista de espera por vaga em UTI que só aumenta a cada dia”, disse Amanda. Ela pontua que o sistema hospitalar está totalmente sobrecarregado, inclusive os leitos de enfermaria, que são para onde os pacientes vão após receber alta da UTI. “Há um gerenciamento a cada hora nos fluxos para que todos os pacientes consigam ser alocados em um leito. É uma força tarefa de todas as áreas do hospital, da recepção à higienização, passando por muitos processos”.

Outra situação preocupante é que a unidade está precisando selecionar os pacientes com prioridade para um leito de UTI em Santa Cruz do Sul. Conforme a médica, o cenário atual exige esta escolha. “O paciente que se enquadra nos critérios de gravidade, com maior chance de sobrevivência tem prioridade para um leito”, lamenta Amanda.

Mudança na rotina

Fora do hospital, a médica conta que sua rotina mudou e que o tempo com a família diminuiu, além do cansaço físico e emocional que fazem parte desta luta contra o vírus. “Eu e meu marido, que é cardiologista, trabalhamos na linha de frente durante a pandemia. Passamos menos tempo do que gostaríamos em casa, estamos vendo pouco nossos familiares. Temos uma filha de um ano e nove meses e quando tenho oportunidade de ficar com ela, aproveito intensamente cada minuto”, sublinha Amanda.

A profissional pontua que pela primeira vez na vida e em dez anos de formada teve sintomas de ansiedade, palpitações, insônia e aperto no peito. “A situação saiu do controle, estamos sobrecarregados, porém trabalhamos com vidas, precisamos estar ali com o nosso conhecimento, dando o nosso melhor, trabalhando em plantões por vezes de mais de 24 horas consecutivas”.

Cuidado é essencial

“Quero agradecer a todos os profissionais de saúde que se encontram exaustos, sobrecarregados, mas não abandonaram o seu posto e seguem firmes cuidando de vidas. Obrigada também aos colegas de outras áreas da medicina que, juntamente com nós intensivistas, formaram um time que fez das taxas de mortalidade em UTI em Santa Cruz, uma das menores do Brasil. Resultado de muita competência e dedicação.”

A médica apela à população que se cuide e não conte com a sorte. “Só quem esteve doente dentro de uma UTI Covid sabe o quão mórbido e o quão aterrorizante é estar diante da morte, longe dos familiares. O acesso ao recurso já ultrapassou o limite, não seja mais um na fila de espera por um leito”, finaliza Amanda.

Profissionais de saúde diagnosticados com Covid-19

Trabalhando na linha de frente de enfrentamento à pandemia de Covid-19, os profissionais de saúde lidam e têm contato direto com pacientes diagnosticados com o vírus. No Hospital Santa Cruz, dos mais de 900 funcionários, 146 já positivaram para a doença, desses, somente 13 profissionais da linha de frente tiveram o vírus confirmado. De acordo com o HSC, 90% foram infectados fora do hospital.

O HSC reforça que pratica todos os cuidados e medidas necessárias para evitar a doença e que 100% dos funcionários já receberam a primeira dose da vacina contra Covid-19, além da maioria dos profissionais da linha de frente ter recebido a segunda dose.