
O Dia Nacional da Consciência Negra transcorreu de forma especial para os trabalhadores da Secretaria Municipal de Saúde (Sesa), de Santa Cruz do Sul. O Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias do Fumo e Alimentação (Stifa) sediou esta tarde o primeiro evento promovido pela Sesa para debater e dar visibilidade à política de saúde da população negra. Na plateia estavam agentes de saúde, representantes de conselhos municipais e servidores da pasta.
De acordo com a diretora de Ações e Programas de Saúde da Sesa, Clarissa Gohlke, a atividade já vinha sendo planejada há mais tempo e representa o início de um longo trabalho que deverá preencher uma importante lacuna no atendimento hoje prestado na área da saúde. “Precisamos falar do racismo velado que a gente sabe que acontece. Pode ser durante um atendimento de rotina, na hora do parto ou no tratamento de uma doença, enfim, assim como temos políticas específicas para idosos, LGBTs e deficientes, precisamos pensar a questão da população negra que muitas vezes passa despercebida”, pontuou.
A primeira parte da programação ficou a cargo do coordenador estadual da Política Nacional de Saúde Integral da População Negra, Carlos Goes. Ele contextualizou a situação do negro no Brasil, marcada por 300 anos de escravidão, e defendeu a necessidade de políticas específicas como forma de reparação e pagamento de uma dívida histórica. “Nos conscientizarmos de que existe racismo no Brasil é o primeiro passo. Com certeza o racismo não vai acabar da noite para o dia, pode levar anos, até décadas”, disse ele.

Segundo Goes, dados epidemiológicos demonstram que no Brasil, 60% da mortalidade materna ocorre entre mulheres negras. Entre as fases de gravidez, parto e puerpério, morrem três mulheres negras para cada mulher branca. “Não há diferenças biológicas que justifiquem isso. Existe a questão da hipertensão, mas isso já se conhece e tem como prevenir”.
Ele citou também as consultas de pré-natal, cuja recomendação é para que se faça entre seis e sete durante o período de gestão. As mulheres negras ficam bem abaixo desse patamar e realizam uma média de apenas três. “Por que isso acontece? Talvez pela forma como se dá esse atendimento”, sugeriu. Para Goes é preciso refletir sobre essas questões para que realmente se oferte um serviço igualitário a toda a população. “Se olharmos os dados na área da saúde, veremos que existem diferenças, as condições de saúde são diferentes para mulheres brancas e negras”, destacou.
Na sequência o professor de história Mateus Skolaude, vinculado ao Programa de Educação da Unisc, propôs uma reflexão sobre o racismo no Brasil, tendo em vista uma perspectiva histórica sobre a questão da escravidão e suas implicações sociais e culturais na sociedade contemporânea. “Durante um bom tempo se cultivou a ideia de que não existia racismo no Brasil, a sociedade jogou essa questão para baixo do tapete. A partir dos anos 2000, com a política de cotas nas universidades, isso veio à tona e entrou na pauta da política brasileira”.














