Cristiano Silva
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Fernando Frazão / Agência Brasil
Familiares e amigos das 242 vítimas buscam explicações para
o acontecimento na Boate Kiss, em 27 de janeiro de 2013
O mundo inteiro acompanhou a tragédia ocorrida em Santa Maria, há apenas 150 km de Santa Cruz, no ano passado. O acontecido de dimensões mundiais na Boate Kiss completou um ano ontem, 27 de janeiro, e deixou um sentimento de tristeza e pedidos por explicações, estes que possivelmente jamais terão respostas.
Sem a condenação de culpados e sem nenhum dos réus do processo criminal preso, vários processos ainda correm em diferentes esferas da Justiça do Rio Grande do Sul, mas a demora para apontar os responsáveis pelo saldo de 242 mortes e centenas de feridos causa revolta entre os familiares das vítimas e deixa no ar uma sensação de impunidade.
Os últimos dias 26 e 27 de janeiro foram marcados por homenagens em Santa Maria. Familiares e amigos das 242 vítimas do incêndio na Boate Kiss fizeram uma caminhada até o prédio do Ministério Público com gritos por justiça, faixas com fotografias dos jovens, balões brancos, tambores e apitos, além de cartazes pedindo a punição dos envolvidos. A Polícia Militar acompanhou o ato que foi organizado pelo movimento Santa Maria do Luto à Luta. Pela madrugada, o grupo fez uma vigília em frente à casa noturna. A homenagem reuniu cerca de 600 pessoas. Eles pintaram com tinta branca 242 silhuetas no chão, simbolizando os corpos das vítimas e às 3h, horário em que ocorreu a tragédia em 27 de janeiro do ano passado, sirenes começaram a tocar e gritos por justiça foram ouvidos. Os pais também pintaram um coração no chão onde acenderam velas brancas.
RELEMBRE
Fernando Frazão / Agência Brasil
Dias 26 e 27 de janeiro foram marcados por muita comoção
dos familiares e amigos das vítimas em Santa Maria
A festa “Agromerados” iniciou-se às 23h de 26 de janeiro de 2013, sábado, na Boate Kiss, localizada na Rua dos Andradas, nº 1925, no centro da cidade de Santa Maria. A festa foi organizada por estudantes de seis cursos universitários e técnicos da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Duas bandas estavam programadas para se apresentarem à noite e estimou-se que entre quinhentas a mil pessoas estavam na boate, em sua maioria estudantes.
Por volta das 3h, durante a apresentação da banda Gurizada Fandangueira, um sinalizador de uso externo foi utilizado pelo vocalista da banda. O sinalizador soltou faíscas que atingiram o teto da boate, incendiando a espuma de isolamento acústico, que não tinha proteção contra fogo. Os integrantes da banda e um segurança tentaram apagar as chamas com água e extintores, mas não obtiveram sucesso. Em cerca de três minutos, uma fumaça preta se espalhou por toda a boate. No início do incêndio, não houve comunicação entre os seguranças que estavam no palco e os seguranças que estavam na saída da boate. Estes, então, não permitiram inicialmente que as pessoas saíssem pela única porta do local, por acreditarem tratar-se de uma briga.
Fernando Frazão / Agência Brasil
Fachada da Boate Kiss possui inúmeras homenagens aos mortos na tragédia.
Chão em frente ao local foi pintado com 242 silhuetas, simbolizando os corpos das vítimas
A casa funcionava através do pagamento das comandas de consumo na saída, o que levou os seguranças a também pensarem que as pessoas estavam tentando sair sem pagar. Muitas vítimas forçaram a saída pelas portas dos banheiros, confundindo-as com portas de emergência que dessem para a rua, que de fato não existiam na boate. Em consequência disso, cerca de 90% dos corpos estariam nos banheiros.
Durante o incêndio, de dentro da boate, uma das vítimas fatais conseguiu enviar uma mensagem através da rede social Facebook, comunicando o incêndio e pedindo ajuda. A mensagem foi registrada pelo Facebook como recebida às 3h20. Ainda sem saber das dimensões da situação, amigos pediram mais informações, mas não obtiveram resposta.
A estudante do Curso de Medicina da Universidade de Santa Cruz do Sul (UNISC), Julia Cristofali Saul, faleceu na tragédia de Santa Maria. Ela era natural de Jaguarão e era sobrinha do prefeito da cidade, João Mári Cristofali. Falecido também, Matheus Raschen era santa-cruzense e fazia o curso de Tecnologia em Alimentos da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Matheus foi uma das pessoas que rapidamente saiu da Boate Kiss ao perceber o incêndio, porém voltou inúmeras vezes para tentar salvar mais pessoas, isso ocasionou uma grande inalação da fumaça tóxica, que mesmo com os dias de tratamento intensivo em Santa Maria e Porto Alegre, ocasionou no falecimento do jovem de 20 anos, 4 dias após o acontecido.
A tragédia sem dimensões ocorrida no dia 27 de janeiro de 2013, na Boate Kiss, deixou uma mancha no centro do Rio Grande do Sul. A tristeza eterna pela morte de todas as 242 vítimas da tragédia da Boate Kiss deve ser lembrada como um alerta para jamais acontecer novamente, e a punição aos culpados, ainda que demore como costumeiramente transcorre a justiça brasileira, deve ser feita para honrar a memória daqueles que nos deixaram.
Fernando Frazão / Agência Brasil
Cerca de 600 pessoas se reuniram e realizaram uma vigília em frente à
casa noturna na madrugada do dia 26 para o dia 27 de janeiro














