LUANA CIECELSKI
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Apenas nos cinco primeiros dias de agosto, foram registrados cerca de 44 milímetros de chuva, o que corresponde a 25% da média esperada para todo o mês. Os primeiros dias também foram marcados por variações no clima, com um fim de semana de temperaturas que se mantiveram da casa dos 30 graus, seguido de chuva e dias mais frios – com temperaturas de 19 e 20 graus – para em seguida registrar uma volta progressiva do calor. No entanto, é importante que os santa-cruzenses se acostumem, pois essas variações deverão acontecer pelo resto do inverno, e segundo os especialistas, muito provavelmente também por toda a primavera.
De acordo com o professor de Agrometeorologia do Curso de Engenharia Agrônoma da Universidade de Santa Cruz do Sul (Unisc), Marcelino Hoppe, essas mudanças são características da região. “As massas de ar quente fazem três tombos (descem): no paralelo 30 (ver imagem), no paralelo 60 e por fim no polo (90). Já as massas de ar frio fazem o contrário: elas tombam no paralelo 60, no paralelo 30 e por fim no equador (0). E nós estamos mais ou menos no paralelo 30, então estamos numa zona onde se encontram as massas de ar quente e úmido que estão vindo da Amazônia e massas frias que estão vindo da patagônia. É uma região de conflito”, explicou.
No entanto, até o início de 2016, explica ele, estaremos convivendo com dois fatores que contribuem para o aumento das chuvas e temperatura maior. O primeiro é uma influência do fenômeno El-Niño, que deixa o Oceano Pacífico mais quente. O segundo é um aquecimento das águas do Oceano Atlântico. “Todo o sul do Brasil, o Uruguai e a Argentina estão com águas mais quentes. E quando temos água mais quente, essa água evapora mais e acaba precipitando (chovendo)”, explica.
Por isso, a expectativa para os próximos meses é de mais chuva. Agosto, que nos últimos 30 anos registrou uma média de 160 milímetros mensais, e setembro que registrou média de 175 milímetros, deverão ter 180 milímetros ou mais. Já a temperatura, que nos últimos 30 anos teve uma média de 14,8 graus, também apresentará variações, mas de uma forma geral, deverá ficar acima da média. Prova disso, segundo o professor, é que os sites meteorológicos aos quais ele acompanha, como o INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) e o INMET (Instituto Nacional de Meteorologia) apontam que nesse fim de semana os termômetros mais uma vez deverão chegar aos 30 graus.
Divulgação/Unisc

Prof Marcelino Hoppe: “Quando temos água mais quente, essa água evapora mais e acaba precipitando”
Para a agricultura pode ser ruim
Ainda de acordo com o professor de Agrometeorologia, para algumas culturas como o trigo essa precipitação em excesso e a temperatura mais alta não é boa. “Como ele já foi semeado em maio ele está na época de espigamento agora e esse calor e essa umidade podem acabar causando doenças fungicas”, explica. O plantio do arroz também pode ter prejuízos porque pode surgir problemas na preparação do solo.
Além disso, também para as culturas frutíferas a temperatura mais elevada também pode ser um risco. “Com as temperaturas mais altas, as plantas são estimuladas e sentem que o inverno acabou e que está na hora crescer folhas novas e de florir. Isso pode acontecer mais cedo. No entanto, se acontecer uma geada mais tardia, o que não é muito comum na região, mas já aconteceu no mês de outubro, por exemplo, essas flores podem não resistir e a cultura acabar prejudicada”, explicou.
No entanto, para culturas como soja, milho isso é interessante, afirmou o professor. Já para o fumo, ainda não é possível precisar consequências. “Ele ainda vai ser transplantado futuramente. Se tiver sol e calor ele se desenvolverá mais rápido, mas ainda é muito cedo para dizer se haverá ou não e como ele vai se desenvolver”, afirmou.
Curiosidades
– De forma geral, o mês de agosto possui uma média de temperaturas que variam entre 10 e 20 graus durante um único dia, ou seja, o dia pode registrar 10 graus durante a madrugada e início da manhã, ter um aumento para 15 graus até o meio-dia e chegar a 20 graus no meio da tarde para então apresentar um declínio até os 10 graus novamente.
– A temperatura mais alta já registra no mês de agosto foi a de 35,2 graus. Isso aconteceu no dia 29, em 1933.
– Agosto também bateu seu recorde de mês mais chuvoso em 1965, quando foram registrados 325 milímetros.
– Em junho de 2015 – para se ter uma ideia – foram registrados 302 milímetros, o que também quase foi um recorde para o mês de junho. Anteriormente já havia sido registrado 314 milímetros de chuva nesse mês.
O El-Niño
O que é?
O El Niño é um fenômeno climático, de caráter atmosférico-oceânico, em que ocorre o aquecimento fora do normal das águas do Oceano Pacífico Equatorial. Costuma alterar vários fatores climáticos regionais e globais como, e tem um período de duração que varia entre 10 e 18 meses. Ele acontece de forma irregular (em intervalos de 2 a 7 anos).
Como acontece?
O El Niño provoca o enfraquecimento dos ventos alísios na região equatorial, ou seja, nos ventos que sopram de leste para oeste, e isso provoca mudanças nas correntes atmosféricas.
Efeitos no Brasil
– Secas na região norte e nordeste, podendo aumentar a incidência de queimadas;
– Precipitações abundantes na região sul;
– Aumento da temperatura na região sudeste, mas sem mudanças características nas precipitações;
– Tendência de chuvas acima da média e temperaturas mais altas na região centro-oeste.













