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Aprendi o que é estar do outro lado da notícia

Alexandre Garcia, 45 anos de história no jornalismo brasileiro

LUANA CIECELSKI
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Nascido em Cachoeira do Sul, Alexandre Garcia, jornalista da Rede Globo em Brasília, comentarista de política e segurança pública do Bom Dia Brasil e escritor de colunas em mais de 20 jornais do mundo, esteve em Santa Cruz do Sul no último fim de semana para visitar familiares que vivem na região dos vales. E a reportagem do Riovale Jornal foi ao seu encontro na casa de sua irmã, Marilia Garcia Martins, proprietária da Confeitaria Vovó faz Bolo. Durante os 35 minutos de conversa, Alexandre relembrou momentos importantes de sua carreira – são 45 anos de história no jornalismo –, e apresentou sua opinião sobre a atual situação da economia e da política brasileira e também falou sobre o jornalismo como é feito hoje. Confira um trecho:

Riovale Jornal: Um dos momentos mais importantes da tua carreira foi o período em que atuou como porta-voz do governo militar brasileiro. Como foi esse momento pra ti?
Alexandre Garcia: Eu fui porta-voz do Figueiredo (João Baptista de Oliveira Figueiredo) e foi muito bom, porque eu aprendi o que é estar do outro lado da notícia. Foi muito bom também, porque fui eu que anunciei, com autorização do Figueiredo, que o sucessor dele seria um civil. Eu anunciei no Correio do Povo, numa entrevista de domingo. E foi então que eu comecei a sair (da assessoria de imprensa do governo), porque o Ministro Said Farhat, que não sabia dessa novidade, ficou com ciúmes. Depois fui trabalhar na TV Manchete em 1983 e depois fui para a Globo em 1988.

Riovale Jornal: E agora acompanha o cenário político brasileiro…
Alexandre Garcia: Eu tento acompanhar, mas o cenário político brasileiro é mais rápido do que eu consigo acompanhar. Eu nunca vi tanta coisa acontecer de um dia para o outro. É uma maluquice total.

Riovale Jornal: Mas pra ti, que está em Brasília e vê tudo mais de perto, qual é a situação real?
Alexandre Garcia: Eu costumo dizer que a Presidente Dilma tem um poder sobrenatural de cometer erros.

Riovale Jornal: Tu achas que isso justificaria um impeachment, como tantas pessoas vinham falando e pedindo?
Alexandre Garcia: Pode ser. Há um lado eleitoral, o fato de já haver um depoimento de um colaborador premiado, de que ele mesmo deu R$ 7,5 milhões retirados da Petrobrás para a campanha da Dilma de reeleição. Isso de certa forma anularia a diplomação dela. Por outro lado, lá no TCU (Tribunal de Contas da União) também há as pedaladas fiscais, em que o governo tomou dinheiro da Caixa Econômica e de outros fundos, coisa que pela lei, é crime de responsabilidade, e também é motivo de Impeachment. E tem o lado político do congresso. Porque o Impeachment é uma questão política, é um julgamento político, e um dos fundadores do PT, o Hélio Bicudo, já fez o pedido. Agora a Câmara é que vai julgar se aceita ou não aceita e remete para o Senado para julgar como se fosse um tribunal. Mas há também uma decisão pessoal dela, uma possibilidade de renúncia.

Riovale Jornal: Essa efervescência política que houve no segundo turno, essa polarização Aécio e Dilma com uma pequena diferença de votos e que ficou quase como uma eleição mal resolvida, é que está alimentando até hoje tantas discussões?
Alexandre Garcia: Não, acho que o que está alimentando é toda essa bagunça nas contas públicas. Aliás, Aécio e companhia são uma oposição pífia. Eu tenho um colega que diz que o governo faz oposição a si próprio na falta de oposição. Mas de um modo geral, posso dizer que não é um terceiro turno, como o PT quer dizer, ou achar que a origem é o ciúme de quem perdeu, porque o país está virado numa coisa.

Riovale Jornal: Essa administração da Dilma pode ser o fim da chamada “Era PT”?
Alexandre Garcia: Pode ser, mas depende dos próximos três anos. Imagina se houver mais três anos de desgaste!

Riovale Jornal: Alexandre, tu começaste trabalhando no rádio, ainda criança como locutor de novelas infantis, certo? Que lembrança tu tens desse período?
Alexandre Garcia: Ah, as famílias eram mais unidas naquela época. O rádio reunia as pessoas porque elas não ficavam olhando pra uma tela. Elas olhavam uns nos olhos dos outros e conversando enquanto ouviam a programação. E eu nem precisaria ter trabalhado em uma rádio para saber disso, é por experiência própria, minha infância foi assim. Meu avô lia o jornal comentando as notícias do dia, a minha vó lia um romance, a minha mãe comentando do seu dia e das pessoas com que tinha falado e eu ouvia a conversa. Naquele tempo, menino ficava quieto quando os adultos conversavam.

Riovale Jornal: Nas últimas décadas, levando em conta o percurso do rádio, o surgimento posterior da televisão onde assistimos o homem pisar na lua e a transmissão direta da copa, até a chegada das redes sociais, tu achas que o jornalismo perdeu um pouco desse romantismo e daquela idoneidade?
Alexandre Garcia: Sim, mudou o estilo de fazer jornalismo, né? Mas eu, sinceramente, tenho por princípio não acreditar na internet. Porque eu vejo, por exemplo, um monte de manifestações minhas, artigos meus que eu nunca escrevi. Botam fotografia minha, e tal, mas não fui eu (risos). Eu fico com raiva, sabe, porque muitas vezes eu penso “jamais escreveria uma asnice dessas, ou uma pieguice dessas”. Mas eu acho que mudou, sim, o estilo do jornalismo. Eu já passei por uma fase, onde não interessava a opinião do jornalista, nem a emoção do jornalista, nós tínhamos que ser frios, distantes, isentos, neutros. Agora não. Mas é preciso ter cuidado para que a vida pessoal não se misture com a notícia, porque eu acho que a notícia ainda é mais importante que o jornalista. Eu, particularmente, prefiro evitar essa aproximação. Isso me parece, às vezes, um apelo desesperado à audiência, e eu acho que a gente não tem que fazer o que a audiência quer, mas o que a audiência precisa. Se não pode virar um circo e perde-se a credibilidade que é principal patrimônio de um jornalista.

Riovale Jornal: Teve alguma notícia que te marcou mais na carreira?
Alexandre Garcia: Teve. Quando o congresso uruguaio foi fechado, na década de 70. Eu estava em Porto Alegre e o Jornal do Brasil não tinha ninguém experiente pra mandar, quer dizer, não tinha avião pra ir alguém do Rio (de Janeiro) pra cobrir em Montevidéu e mandaram o menino que recém tinha começado, tinha dois anos de jornalismo, porque o avião saia de Porto Alegre às 18h30 e eu estaria às 19h30 em Montevidéu. Eu cheguei lá e consegui a primeira entrevista com o presidente que fechou o congresso e deu o golpe no Uruguai. Isso saiu na edição de domingo do Jornal do Brasil, que era a maior tiragem do país na época, e eu saí em uma foto com o Bordaberry (Presidente Juan María Bordaberry). Essa foto tinha o mesmo tamanho de uma outra foto que saiu na primeira página, do casamento de Elizabeth Taylor com Richard Burton. Quando eu vi aquilo eu disse: ganhei alguma coisa!

*Colaboração de Fernando Lima para a entrevista

Alexandre Garcia veio a Santa Cruz do Sul para visitar a família. Na foto, a sobrinha Daniela Garcia Martins, a irmã Marí­lia Garcia Martins e o sobrinho-neto Pedro Garcia Martins