Início Geral A realidade da Somália: "Distorção precisa ser superada"

A realidade da Somália: "Distorção precisa ser superada"

Somália, país situado na costa leste da África, passa por uma longa crise humanitária

Nelson Treglia
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O dia 14 de outubro de 2017 ficou marcado por um acontecimento chocante. Na Somália, país situado na costa leste da África, um ataque terrorista envolvendo dois veículos-bomba causou mais de 350 mortes e deixou centenas de feridos. Nas redes sociais, pessoas questionaram: “Por que a grande mídia não dá uma cobertura semelhante aos atentados na África na comparação com os atentados ocorridos na França, nos Estados Unidos ou na Inglaterra? Por que não damos atenção a países como a Somália?”
Para encontrar respostas para tais questionamentos, o ‘Riovale Jornal’ conversou com a professora Mariana Dalalana Corbellini, coordenadora do Curso de Relações Internacionais da Unisc. Confira a entrevista:

Riovale – Recentemente, na Somália, um atentado provocou mais de 350 mortes e feriu outras centenas de pessoas. Diante da gravidade do acontecimento, deveríamos observar com mais atenção o que acontece na África? Afinal, o foco da sociedade ocidental está muito mais voltado para países hegemônicos (EUA, França, Inglaterra…).
Mariana –
Sim. Há muita comoção, especialmente nas redes sociais, quando ficamos sabendo da perda de vidas humanas em países desenvolvidos e de grande expressão no sistema internacional. Entretanto, quando estamos diante da informação de um atentado da dimensão do atentado em Mogadishu (capital da Somália), dificilmente observamos essa mesma empatia. Em parte, essa falta de empatia parece relacionada ao fato de estarmos lidando com uma sociedade que está longe dos padrões ideais em termos de organização política e desenvolvimento socioeconômico – fatores que dão destaque aos países no sistema internacional. Também, em um momento de acirramento da xenofobia e do racismo nas relações internacionais, estes dois fatores podem contribuir para que a vida humana seja vista com um peso ou importância diferente em diferentes partes do mundo. Evidentemente, essa distorção, por vezes disseminada na parte da sociedade que chamamos de ocidental, precisa ser superada, o que só será possível se estivermos atentos ao que acontece no mundo, não apenas em uma parte dele.

Riovale – A falta de interesse midiático em torno dos atentados na África, está relacionado à falta de interesse econômico em torno de países como a Somália? Por quê?
Mariana –
Em parte. Creio que a falta de interesse midiático em torno dos atentados na África guarde alguma relação com a falta de interesse econômico em alguns países africanos – mas há que se observar que a Somália, por exemplo, é rica em petróleo, que inclusive já vem sendo explorado por potências ocidentais, como o Reino Unido. Entendo que, em parte, o desinteresse passe também pelas dificuldades enfrentadas a campo pelas agências de notícias que estão estabelecidas em alguns países (não só africanos), afinal o conflito e a falta de desenvolvimento socioeconômico impactam diretamente na vida dos jornalistas que estão por lá estabelecidos. Além disso, os problemas internacionais que têm impacto direto nos territórios dos países chamados ocidentais, como a crise migratória na Europa, precisam de solução mais imediata e, portanto, tomam mais tempo dos analistas internacionais também nos meios de comunicação.

Riovale – No Brasil e em outros países, não deveria haver um ‘mea culpa’ por parte da sociedade, um ‘mea culpa’ nosso como cidadãos e seres humanos? Quais meios poderíamos utilizar, na condição de cidadãos, no sentido de ajudar países como a Somália?
Mariana –
Não vejo sentido em fazermos ‘mea culpa’, já que o Brasil não tem relação com as causas do conflito e do subdesenvolvimento na Somália. No entanto, entendo que quando nos deparamos com situações como a da Somália, precisamos pensar menos como nacionais de um país e mais como cidadãos de um mundo globalizado, onde há trocas não apenas em termos econômicos, mas também no que diz respeito a um compartilhamento de valores. Mesmo observando as diferenças culturais, o respeito aos direitos humanos é um valor disseminado na sociedade internacional, portanto deve ser ensinado e defendido. Ao fazermos isso, em âmbito interno, estaremos preparando nossa sociedade para bem receber aquelas pessoas que, assim como os somalis, passam por dificuldades em seus países de origem e vêm, porventura, buscar abrigo no Brasil. Em âmbito internacional, cabe ao governo brasileiro permanecer atento nos fóruns internacionais, onde lhe é permitido negociar, para que os interesses nacionais dos países não se sobreponham à necessidade de ajuda internacional requerida por países como a Somália.

Riovale – Em termos governamentais, dentro da comunidade internacional, existe a possibilidade de estabelecer políticas e programas para ajudar países na situação da Somália? Falando em políticas mais efetivas… Pois a Somália sofre com conflitos, terrorismo, falta de alimentos e de água, e problemas educacionais.
Mariana –
A comunidade internacional já conta com uma série de programas e fundos, muitos deles do próprio Sistema das Nações Unidas, que atuam em diversos países com o intuito de promover o desenvolvimento. Os fundos são provenientes de Estados, em geral desenvolvidos, que se dispõem a cooperar, normalmente através de projetos técnicos que lidam com questões como saneamento básico, saúde, educação etc. Para que tais projetos possam ser estabelecidos, entretanto, a situação no terreno deve estar estabilizada, o que não acontece na Somália. Nesses casos, resta pouco além da ajuda humanitária, que é pontual – mas, ao mesmo tempo, fundamental para aliviar o problema da falta de alimentos e de água potável, por exemplo. 

Riovale – Por que países como a Somália chegaram a esta situação? Abusos internos e externos?
Mariana –
Há muitas causas e visões possíveis. Podemos considerar desde causas anteriores à independência do país até causas mais diretas e atuais. A Somália, assim como diversos países que conquistaram sua independência apenas no século XX, foi disputada historicamente por britânicos (em condomínio com egípcios), franceses e italianos, fato que dividiu seu território cultural e politicamente. Após a independência, passou a protetorado da Organização das Nações Unidas, ou seja, permaneceu sob controle externo. Diante das dificuldades em criar e fortalecer instituições estatais necessárias ao bom funcionamento do Estado-nação, esteve sob influência da polarização e da disputa ideológica da Guerra Fria, o que permitiu a seus grupos políticos acesso a armamentos. Esteve em guerra com a Etiópia. Desde a sua independência, portanto, sofrera com uma economia frágil, assim como muitos outros Estados descolonizados nas décadas de 1950 e 1960, o que foi agravado pelo conflito com o país vizinho e com o panorama econômico mundial dos anos 1980. País formado por clãs que buscam representação política, permaneceu durante décadas sob a presidência de um único indivíduo, Siad Barre.
Em 1991, após a crise ocasionada pelo descontentamento dos clãs, viu seu presidente ser destituído e abrir-se espaço para novas intervenções externas (muitas operações de paz autorizadas pelo Conselho de Segurança das Nações Unidas – inclusive, entre elas, a primeira a ter seu escopo estendido para tarefas de auxílio à reconstrução política, social e econômica do país, com autorização para o uso da força pelas tropas internacionais) e o surgimento de grupos com as mais diversas agendas, inclusive terroristas, como o Al-Shabab (responsável pelo atentado). Todas essas situações são, guardadas as suas particularidades, compartilhadas por outros países que, a exemplo da Somália, encontram-se em situação de instabilidade política, violência generalizada ou mesmo guerra civil.