
Dois anos depois das enchentes históricas que devastaram o Rio Grande do Sul em 2024, o debate sobre eventos climáticos extremos retorna com a expectativa de um novo El Niño. O meteorologista e professor da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), Vagner Anabor, integrante do Comitê Científico de Adaptação e Resiliência Climática do Plano Rio Grande, alerta para a percepção equivocada de que fenômenos extremos seriam raros ou recentes.
“Tempestades severas fazem parte da dinâmica climática da região Sul do Brasil, especialmente no território gaúcho”, afirmou, destacando a importância de compreender esse cenário para fortalecer estratégias de prevenção e adaptação. Embora tenha ganhado maior visibilidade nos últimos anos, o El Niño não é um fenômeno novo. Desde a década de 1980, pesquisadores da climatologia passaram a investigar com mais profundidade seus impactos e as regiões mais afetadas, entre elas o Rio Grande do Sul.
Conforme Anabor, o El Niño é “um fenômeno marcado pelo aquecimento anômalo das águas do Oceano Pacífico na região equatorial”. Esse aquecimento altera a circulação atmosférica, modificando a distribuição de calor e umidade em diferentes partes do planeta. O evento costuma ocorrer a cada dois a sete anos e pode durar de nove a 12 meses.
No Brasil, os efeitos variam conforme a região. “A região Sul tende a ficar mais suscetível a episódios de chuva intensa e temporais, enquanto Norte e Nordeste registram períodos mais secos”, explicou o pesquisador. A intensidade dos impactos depende da força com que o El Niño se manifesta em cada ciclo.
As enchentes de 2024, segundo especialistas, não podem ser atribuídas exclusivamente ao fenômeno. Elas resultaram da combinação de diferentes fatores atmosféricos. Em estudo desenvolvido com o Programa de Pós-Graduação em Meteorologia da UFSM, Anabor destacou que “a ocorrência de grandes tempestades na costa da África produziu perturbações que se propagaram até a América do Sul e modificaram as condições de tempo na região”. Essas perturbações bloquearam o fluxo de ar e favoreceram a permanência das tempestades sobre o Estado por mais tempo, aumentando o volume de chuva e agravando os impactos da catástrofe climática.
Geografia torna RS mais vulnerável a extremos
A localização geográfica do Rio Grande do Sul contribui para que o Estado seja mais vulnerável à ocorrência de eventos climáticos extremos. Segundo Murilo Lopes, doutor em Meteorologia pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), a região recebe diferentes massas de ar ao longo do ano, especialmente nas estações de transição, como outono e primavera. Além disso, a umidade vinda da Amazônia, transportada por correntes de vento, favorece a formação de tempestades e episódios de chuva intensa.
“Estamos em uma faixa de latitude do globo que favorece a aproximação tanto de massas de ar mais aquecidas, que vêm da região equatorial, quanto de massas de ar mais frias, que vêm da região polar”, explica Lopes. O encontro dessas massas contribui para alterações na velocidade dos ventos em diferentes níveis da atmosfera, cenário que favorece tempestades mais intensas e duradouras, capazes de provocar granizo de grande porte, vendavais e até tornados.
Entre os fatores que resultaram nas enchentes de 2024, o pesquisador destaca o grande volume de umidade transportado da Amazônia e do Atlântico, somado a um bloqueio atmosférico que impediu o deslocamento das tempestades. “Nós tivemos chuvas bastante intensas sobre a mesma região no período de 72 horas”, afirma. Para compreender o comportamento das tempestades severas no Estado, meteorologistas utilizam paralelos com sistemas atmosféricos observados nos Estados Unidos, onde há condições semelhantes para a formação de fenômenos extremos.
Lopes explica que o chamado “tempo severo” está associado a tempestades com intensa atividade elétrica, grande volume de chuva e potencial para inundações repentinas. Entre os fenômenos que compõem essa classificação estão rajadas de vento superiores a 90 km/h, granizo com mais de dois centímetros de diâmetro e tornados, considerados raros, mas de elevado potencial destrutivo.
Fenômeno tem alta probabilidade, mas intensidade incerta
Um documento elaborado pelo Comitê Científico de Adaptação e Resiliência Climática do Rio Grande do Sul entre abril e maio de 2026 apontou a possibilidade de um novo episódio de El Niño ainda neste ano. Apesar disso, não há evidências de que o fenômeno alcance a mesma intensidade registrada entre 2023 e 2024. “Tudo indica um novo El Niño em 2026, possivelmente forte, mas isso não significa uma nova tragédia. Eventos extremos dependem da combinação de diversos fatores”, afirmou o meteorologista Murilo Lopes.
As previsões mais recentes da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) indicam alta probabilidade de formação do fenômeno entre julho e agosto de 2026. Segundo os modelos climáticos, a chance de ocorrência está em torno de 80%, podendo chegar a 90% ao longo do segundo semestre. Há ainda a possibilidade de o evento se prolongar até o fim do ano.
O Instituto Internacional de Pesquisa sobre Clima e Sociedade (IRI), da Universidade Columbia, também projeta 70% de probabilidade para o desenvolvimento do El Niño entre abril e junho de 2026. Os cenários analisados apontam que o fenômeno deve permanecer ativo até o final do ano, com chances de permanência variando entre 88% e 94%. A tendência, baseada em episódios anteriores, é de tempestades e chuvas intensas na primavera e temperaturas mais elevadas no inverno.
Entre novembro de 2026 e janeiro de 2027, os cenários indicam cerca de 25% de chance para episódios moderados, fortes ou muito fortes. Apesar disso, especialistas ressaltam que ainda existe elevado grau de incerteza quanto à intensidade. “Os modelos climáticos trabalham com probabilidades e tendências, não com previsões exatas”, destacou o professor Vagner Anabor. Para os pesquisadores, o momento exige atenção qualificada e acompanhamento das previsões sazonais, sem alarmismo.
Ações de prevenção a serem adotadas
Eventos extremos não são sinônimos de desastres naturais, mas fenômenos meteorológicos que podem desencadear situações de desastre, dependendo da intensidade e dos impactos sobre a população e o território. Nesse contexto, a ocorrência do El Niño não significa, necessariamente, a previsão de uma catástrofe específica, mas indica maior probabilidade de episódios de chuva intensa no Sul do Brasil.
Entre os impactos mais comuns associados ao fenômeno estão inundações, enxurradas, movimentos de massa, alagamentos urbanos, danos à infraestrutura e perdas agrícolas, especialmente em culturas como soja, milho e arroz. O documento elaborado pelo Comitê Científico de Adaptação e Resiliência Climática destaca que esses efeitos podem variar conforme a intensidade do El Niño e a combinação de fatores atmosféricos.
A preparação prévia dos órgãos públicos, da Defesa Civil e dos setores produtivos é considerada essencial diante da possibilidade de consolidação do fenômeno. Entre as medidas recomendadas estão a revisão de planos de contingência e o fortalecimento da infraestrutura voltada à manutenção de serviços básicos, especialmente em cenários de eventos hidrometeorológicos extremos.
Além das ações operacionais, o relatório ressalta a importância de ampliar a comunicação com a população de forma clara e acessível. A proposta é garantir que a sociedade conheça os planos de contingência, os riscos associados e os procedimentos recomendados em situações de emergência, contribuindo para reduzir danos e fortalecer a capacidade de resposta coletiva. Em áreas mais vulneráveis, essas condições podem favorecer alagamentos, enxurradas e movimentos de massa, mas os especialistas destacam que ainda é cedo para prever o comportamento das chuvas no verão e no outono de 2027. (Com informações da Agência de Notícias da UFSM)














