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Lição de amor: a força que tem uma mãe

Jéssica Ferreira

Renata de Oliveira: “Tenho ao meu lado uma filha adorável, carinhosa, uma grande companheira e amiga”

Jéssica Ferreira
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Descobrir que o filho tem alguma deficiência é um choque inicial para a maioria dos pais. Passam inúmeras perguntas na cabeça de uma mãe, como “O que eu faço agora?”, “Será que vou conseguir?”, “Como será a vida do meu filho?”, entre tantas outras dúvidas e medo que surgem. Assim foi com Renata de Oliveira, que teve sua primeira gestação ainda muito nova e inexperiente para sua idade. Ela conta que teve uma gravidez normal, e logo após o nascimento da filha descobriu que ela era portadora de paralisia cerebral— nome que se dá a um grupo de problemas motores (relacionados aos movimentos do corpo) que começam bem cedo na vida e são o resultado de lesões do sistema nervoso central ou problemas no desenvolvimento do cérebro antes do nascimento.
“Como eu era adolescente, eu não tive tempo para ter qualquer reação, a médica deixou claro para mim que eu deveria me lamentar ou lutar pela minha filha, e foi o que eu fiz”, conta. Por mais que a notícia pudesse ter deixado Renata triste, a vida seguiu para ela, e pela primeira vez ela descobriu uma das mais belas virtudes da vida, que é ser mãe. “Eu tive que seguir em frente. Eu sou os braços, mãos, pernas da minha filha, ou seja, tenho alguém totalmente dependente de mim, e por mais que no início fosse difícil, eu descobri a coisa mais importante da minha vida”, frisa.
Renata faz parte do Grupo Renascer da Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae), e todas as quintas-feiras leva sua filha para se entreter com seus colegas, e outras mães que passam pela mesma situação dela. “No começo em relação ao grupo, eu tinha certo preconceito. Achava que as outras mães vinham se lamentar, chorar porque a vida não é fácil, mas mudei minha visão nas primeiras visitas. Hoje virou lazer estar aqui com elas, com seus filhos. Ajudo a desenvolver alguns trabalhos, trocamos ideias, buscamos motivações umas para as outras”, conta.
Ter um filho especial, segundo Renata, não a faz uma mãe especial. “Sou uma mãe normal, assim como qualquer mãe que faz tudo pelo bem do seu filho. Lembro que a primeira retribuição de carinho que recebi da Betina, foi algo tão simples para quem for ouvir, mas que para mim foi tudo. Quando ela começou a fazer fisioterapia, não havia nenhuma reação ou perspectivas. Foi quando uma médica pediu para que eu tentasse me comunicar com minha filha a fim de receber algum retorno. Perguntei então para ela ‘onde ficavam seus pés’ e prontamente através de gestos e olhares ela soube me responder. Para mim aquilo foi incrível, a partir daquele momento a Betina passou a ter melhorias no seu tratamento. Tenho ao meu lado uma filha adorável, carinhosa, uma grande companheira e amiga”, finaliza.
As dificuldades em ter um filho especial são enfrentadas no dia a dia tanto em casa como na rua. Cuidar de uma família e dar amor é um trabalho dobrado, ainda mais para uma mãe de um filho especial. O caso de Joaquina Moura da Silva não é diferente, ela passa amor e cuidados para seus três filhos, além de cuidar da casa e do marido. Porém a sua atenção dobrada vai para seu caçula, André Borges da Silva. “Meu primeiro filho nasceu através de uma cesárea, pois o médico havia me dito que teria problemas com um parto normal. Depois nasceu minha filha, de cesárea também. Quando o André nasceu, no dia o médico preferiu realizar parto normal, pois a gravidez da minha filha foi tranquila, e nesta também. Porém, depois que o André nasceu, descobrimos que ele seria especial. Claro que foi um choque, mas não mudou para mim, pelo contrário, ganhei um pedacinho de mim, completamente ligado a mim”, conta.
Os encontros com o grupo Renascer, para Joaquina e André, são sagrados. “Chega no dia e se eu não falo nada, ele chega a me cobrar. A proposta de ouvir quem vive situações semelhantes às suas nos faz entender tudo com mais naturalidade. Ter um filho com deficiência nos proporciona ganhos à alma, que em outras circunstâncias certamente não teriam tanto valor. Sem contar nas amizades e o bem que faz isso para meu filho”, conta.
Para Joaquina, a esperança no começo era algo que carregava consigo. “O médico me disse que ele poderia voltar a ser ‘normal’, ou seja, poderia desenvolver apenas algumas sequelas, mas que na infância poderia reverter. Mas com o tempo passando ia percebendo que ele demorava a sentar, comer, falar… E assim foi até aceitar que meu filho era sim especial”, diz. Porém, mesmo com a ânsia de ver seu filho “normal” e acabar descobrindo que o mesmo seria especial, para Joaquina nada teria mudado. “Meus outros filhos sempre estiveram do meu lado cuidando do André, isso trouxe todos eles para pertinho de mim, e é onde sempre quero vê-os. Por mais que nossos filhos cresçam, nosso amor cresce junto. Então ver o André sorrindo, ver seus irmãos junto nos faz uma família unida, feliz. Tenho comigo filhos maravilhosos, dos quais nenhum é diferente ou especial, são meus filhos”, finaliza.
Enquanto os psicólogos aprendem mais sobre os pensamentos de crianças portadoras da síndrome de Down, pais, amigos e professores precisam continuar aprendendo a ajudar esses meninos a desenvolver suas capacidades mental e social. Está ficando cada vez mais claro que o melhor jeito de incentivar esse crescimento é interagir com essas crianças de modo vívido e imaginativo.
Enquanto psicólogos e professores aprendem e ensinam sobre os pensamentos e reações de crianças e adolescentes portadores de alguma deficiência, do lado estão os pais, e principalmente as mães guerreiras, que aprendem junto com seus filhos a se comunicarem, a viver a vida deles para eles aprenderem a se expressar. Está cada vez mais claro que o crescimento de uma criança especial ocorre através do incentivo dos seus pais. Um filho especial não é para qualquer um, é para aqueles que amam independente de qualquer coisa. São pais e mães guerreiros, não especiais. São pais que vivem pelos seus filhos.

Sobre o Grupo Renascer:

O Grupo Renascer há 10 anos realiza reuniões com pais e filhos com o intuito de promover atividades para as mães e cuidadoras de pessoas com deficiências múltiplas. São realizados encontros semanais, onde as participantes recebem auxílio de profissionais como técnico de enfermagem, psicólogo e assistente social.
No grupo se exerce diversas atividades com os participantes, são trocas de experiências, conversas, passeios entre tantas outras coisas já vistas pelo grupo. Segundo a assistente social do grupo, Mara Wojahn, o encontro tem como objetivo tirar as mães do isolamento. “A atenção delas é completamente voltada para os cuidados dos seus filhos, sua rotina se resume nisso. Por conta disto, através deste espaço que o grupo fornece, procuramos ampliar o círculo social. Sendo assim, elas aproveitam para desabafar, trocar ideias com pessoas que vivem o mesmo ciclo de vida que elas vivem”, explica.
Durante a tarde desta última quinta-feira, o grupo se reuniu como de costume. Na oportunidade, as mães receberam um cartão com desenhos de flores feitos através da pintura da mão de seus filhos. Além disso, foram proporcionadas demais atividades para comemorar o Dia das Mães.