Luana Ciecelski
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Após vários meses quase sem chuva, a cidade de São Paulo, no sudeste do país, sofreu com a falta de água e foi obrigada a fazer uso de medidas drásticas, como o racionamento, para que as reservas hídricas que abastecem o município não secassem totalmente e a população não ficasse sem água. Na região de Santa Cruz do Sul, como foi visto em matéria anterior (publicada em 19 de fevereiro), a presença do Lago Dourado, as chuvas em abundância por todo o estado e a existência de bons mananciais torna mais distante a possibilidade de uma seca total, no entanto, a poluição é preocupante, e torna a distribuição de água potável – consumível – mais difícil e cara a cada dia.
Pensando nessa realidade, que não é só gaúcha ou brasileira, mas mundial, organizações como a Mundial da Saúde (OMS) determinam que o desperdício de água seja reduzido e que o tratamento de esgoto chegue a todas as residências o quanto antes. Ao mesmo tempo, cada vez mais pesquisadores se preocupam em buscar alternativas para diminuir a emissão do dióxido de carbono (CO²), criando tecnologias que produzam mais poluindo menos. E por sua vez, prefeituras e instituições locais responsáveis pelo abastecimento, como a Companhia Rio-grandense de Saneamento (Corsan), se tornam conscientes de seus papeis na tentativa de frear o problema ambiental, buscando medidas para recuperar tubulações e diminuir os vazamentos.
No entanto, de acordo com o professor de Limnología do Departamento de Biologia e Farmácia da Universidade de Santa Cruz do Sul, Eduardo Lobo Alcayaga, existem muitas iniciativas que podem ser feitas também pela comunidade em suas próprias casas. “Além das empresas que devem cuidar para diminuir a emissão de gases de efeito estufa que está causando drásticas mudanças climáticas, além dos municípios que devem trabalhar para melhorar os sistemas de distribuição de água, às pessoas também devem adotar sistemas em suas casas para auxiliar na diminuição do desperdício”, afirma Lobo.
Segundo ele, o Brasil ainda possui uma cultura hídrica muito defasada. “Utilizamos água potável para descarga do banheiro. Isso não é mais aceitável”, exemplifica o professor. A água, além da tarifa para consumo, tem um custo ambiental muito alto, e usar no banheiro, não dá. “É preciso reutilizar de forma inteligente”, explica.
Uma das soluções, de acordo com o professor passa pelo reaproveitamento da água, inclusive da chuva e de calhas para utilizar em serviços domésticos que não exijam água potável. Dar a descarga no banheiro é uma delas. Limpar as calçadas e regar plantas também. Outra vantagem do armazenamento de água da chuva, é que não envolve gastos de energia nem altos custos de implantação. Também não precisa de muita manutenção e diminui a dependência do sistema convencional de distribuição, ou seja, em caso de um corte no abastecimento, a casa não fica totalmente sem água.
“Os jovens engenheiros e arquitetos devem pensar em formas de armazenamento para os prédios do futuro, para que se torne mais fácil o reuso da água”, opina Lobo. Outra ideia fornecida pelo professor é implantar sistemas de reaproveitamento de máquinas de lavar roupa e louça.
Blog Arquitetura Sustentável

Reaproveitar a água da chuva e das calhas para utilidades domésticas é uma fácil de colocar em prática e sustentável
Outras soluções
Existem algumas soluções propostas por pesquisadores no assunto, afirma o professor Lobo, que podem mudar uma situação de falta de água, como está acontecendo em São Paulo, e prevenir que a escassez chegue a níveis caóticos. Algumas opções são mais caras, outras mais baratas. Algumas também levam mais tempo do que outras para poderem ser implantadas, no entanto, todas as cidades e localidades do país e do mundo poderiam se adaptar a algumas dessas alternativas. Confira algumas das ideias propostas, conforme reportagem divulgada no site do jornal Zero Hora em 31 de janeiro de 2015:
1. Racionamento – o revezamento de distribuição de água entre regiões. O lado bom é que diminui drasticamente o consumo de água. O lado ruim é que prejudica os moradores de regiões mais altas e distantes, além de impactar na qualidade da água, uma vez que o esvaziamento da rede facilita a entrada de poluentes. São Paulo chegou a implantar esse sistema em janeiro.
2. Descontos e punições – é a aplicação de dedução ou multa, conforme o consumo de água do usuário. O pró é que a medida costuma ter efeito rápido na mudança de hábito da população. O contra é que a resistência inicial é grande e tem um custo político para os gestores.
3. Reaproveitar a própria água – trata a água eliminada nas redes de esgoto e utilizá-las para indústria, irrigação e até com potencial para consumo. O lado bom é que diminui a quantidade de água retirada de rios e mananciais e aumenta a segurança hídrica. A grande dificuldade é sua implantação e o preconceito contra o reuso da água.
4. Reduzir o desperdício – evitar que a água já tratada seja perdida em vazamentos na tubulação ou em ligações irregulares na rede. Os chamados “gatos”. No Brasil, 37% da água tratada é perdida antes de chegar às torneiras. O lado positivo é que com menos perdas, a economia seria maior, pois aumenta o aproveitamento da água. O lado negativo é que boa parte da tubulação brasileira é velha e exige reparos.
5. Mudar os hábitos – implantar programas de conscientização da população. O lado bom é que tem efeitos duradouros e contribuição imediata na recuperação dos reservatórios. O lado difícil é a resistências da população e o custo políticos que isso traz para os gestores.
6. Despoluição e proteção de mananciais – é a despoluição de fontes naturais por meio de tratamento e redução de despejo de esgoto. Os prós é que é eficaz até em rios muito poluídos. Os contras é que além do preço, a medida enfrenta desconfiança da população.
7. Instalação de novos sistemas – fazer obras para utilizar água em novos mananciais. O bom é que aumenta a oferta de água e diminui a dependência de fontes já utilizadas. O ruim é que leva tempo e custa caro para implantar.
8. Dessalinização – é o uso de processos físicos e químicos para remoção de minerais na água, tornando-a potável. O bom é que há grande oferta de água salgada no Brasil, que é banhado pelo Oceano Atlântico e tecnologia já existe. O ruim é que consome muita energia e pode trazer danos ambientais. Bombear água para cidades acima do nível do mar ainda traria um custo extra.
9. Transposição de rios – deslocamento de parte dos rios de uma região para outra por meio de canais de concreto. O bom é que permite que regiões afetadas cronicamente pela seca sejam abastecidas de forma constante. O ruim é que além do custo altíssimo de execução, a medida exige realocamento de parte da população e pode causar danos ambientais irreversíveis.
10. Novos aqüíferos – uso de reservas subterrâneas de água. No Brasil, o Aquífero Guarani, que tem uma área do tamanho da Alemanha, França e Itália juntas, é uma alternativa. O positivo é que diante da grande quantidade, garantiria água por lingo período, independente das chuvas. No entanto, o uso excessivo pode contaminar a reserva e causar seu esgotamento.
11. Armazenar água da chuva – a água captada da chuva pode ser usada para fins domésticos e industriais. O bom é uma solução que não envolve gasto de energia nem altos custos de implantação. Também não precisa de muita manutenção e diminui a dependência do sistema convencional de distribuição. Por outro lado, a falta de incentivo e o desconhecimento são os principais obstáculos.
12. Coletores de ar que condensam água – máquinas condensam a umidade da atmosfera e a transformam em água potável, num processo muito semelhante ao da chuva. Os prós são que as máquinas que usam o processo químico têm um bom custo-benefício. Existem também instrumentos movidos a energia solar que apesar de um pouco mais caros, tem baixo custo de funcionamento. O ruim, no entanto, é que não dá pra condensar a água do ar em todo o lugar. A temperatura e o nível de umidade do ar impõem restrições, que variam conforme a máquina. É ideal para pequenas populações. Aparelhos que produzem água por condensação em larga escala podem causar problemas ambientais e a saúde ao reduzirem a umidade do ar.
Projetos exemplares já acontecem em Santa Cruz
Pensando na necessidade de proteger cada vez mais os recursos hídricos da região, a empresa Universal Leaf Tabacos e Fundación Altadis (organização sem fins lucrativos pertencente ao Grupo Imperial Tobacco), em parceria com a Universidade de Santa Cruz do Sul (Unisc), e contando com o apoio de Município de Vera Cruz, Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio Pardo (Comitê Pardo), Sinditabaco e AFUBRA (Associação dos Fumicultores do Brasil), assinaram, em 2011, um contrato para a execução do projeto “Pagamento por Serviços Ambientais (PSA) na sub-bacia do arroio Andréas, Bacia Hidrográfica do Rio Pardo, RS, Brasil”, denominado “Projeto Protetor das Águas”.
A ideia era desenvolver o projeto através da Unisc num período de cinco anos (2011-2015), visando proteger as nascentes e áreas do entorno da sub-bacia, garantindo a preservação dos recursos hídricos mediante o pagamento aos agricultores de pequenas propriedades pelo fornecimento de serviços ambientais de proteção das nascentes e áreas ripárias que se situam em suas propriedades.
Por parte da Unisc, o professor Dionei Delevati (Engenheiro Agrônomo) coordena as atividades referentes ao PSA, e integram a equipe técnica do projeto os professores Eduardo Lobo Alcayaga (Biólogo), Adilson Bem da Costa (Químico Industrial), Jair Putzke (Biólogo) e Bruno Deprá (Geógrafo).
Como funciona
Atualmente, o Protetor das Águas integra 67 proprietários rurais cujas propriedades possuem nascentes e áreas marginais importantes contribuintes do Arroio Andréas. Estes agricultores passaram a ser caracterizados como “produtores de água” e a ter na preservação ambiental uma fonte de renda dentro do propósito de diversificação das propriedades. O trabalho conjunto entre a universidade, os patrocinadores e os produtores está resultando em melhorias gradativas e contínuas na qualidade da água e na recomposição da vegetação. Através do projeto, 103 fontes estão protegidas e a área total de preservação soma 144 hectares.
Entre os avanços percebidos estão a melhoria da qualidade da água do Arroio Andréas e a recomposição da vegetação nas nascentes e áreas ripárias. Com monitoramento mensal por meio de análises laboratoriais, os resultados apontam melhorias significativas. Por exemplo, no início do projeto, a água de classes 1 e 2 (de melhor qualidade e próprias para uso) somava 44% do total, e já aumentou para aproximadamente 70%.
Com cronograma de atividades até o final de 2015, o projeto está entrando em seu quinto e último ano. Os produtores rurais já receberam quatro pagamentos (dos cinco previstos). No entanto, de acordo com o Professor Dionei, embora o PSA se encontre na sua reta final, “estamos trabalhando fortemente a possibilidade da renovação do projeto, para que possamos continuar pagando os agricultores pelo trabalho de preservação”, explica.














