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Não foi sem motivo, diz secretário

Fotos: Luana Ciecelski

Moradores lamentaram a perda da sombra das árvores que cultivaram

LUANA CIECELSKI
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Tudo começou há cerca de duas décadas, quando os moradores da rua Cacequi, no bairro Esmeralda, resolveram plantar árvores em um terreno até então baldio. Na época, a comunidade procurou a Prefeitura e conseguiu através do então prefeito Edmar Hermany, não só a autorização para o plantio, como também o apoio na doação de mudas que vieram do hortoflorestal municipal. Desde então a comunidade zelava pela área que contava com mais de 30 árvores entre outros arbustos e plantas menores.
Assim foi até cerca de duas semanas, quando funcionários a serviço da Secretaria Municipal de Meio Ambiente, Saneamento e Sustentabilidade (SMMASS), munidos com uma autorização, cortaram as árvores. Iniciou-se então uma discussão que já foi pauta inclusive da Câmara de Vereadores. Os moradores se mostraram chateados com a ação. A Secretaria de Meio Ambiente, no entanto, explicou que o corte era necessário por vários motivos, inclusive a existência de um projeto novo para o local.
Moradora do bairro há 22 anos, Margit Teixeira ajudou a plantar as árvores e as viu crescer. “Nós nos empenhamos, plantamos, regamos a balde, protegemos com cercas e ensinávamos as crianças a preservar”, relata. No entanto, segundo ela, o que mais chateou os moradores, foi a falta de diálogo da Prefeitura. “Nós só queríamos preservar nossas árvores, nossa sombra no verão onde nós nos sentávamos para tomar chimarrão enquanto as crianças brincavam e corriam na grama, e ninguém veio conversar com nós, discutir as possibilidades. Quando se tem um projeto, você apresenta ele para os moradores, vê se é do interesse da comunidade, discute com ela”, opinou.
Segundo ela, que foi escolhida por um grupo de vizinhos para servir de porta-voz, toda a comunidade ficou com uma sensação de não ser respeitada. “Quando chegaram as máquinas, depois de todo o nosso trabalho, era como se elas estivessem passando por cima de nós”, relatou. “Eles podiam ter vindo e explicado que precisariam tirar algumas, poderiam vir e sugerir soluções para não nos deixar à mercê do calor”, disse.
De acordo com o secretário municipal do Meio Ambiente, Raul Fritsch, no entanto, a ação era necessária e não foi feita sem motivo. Segundo ele, o corte foi autorizado em dezembro de 2014 – ainda durante exercício do secretário Marcelo Diniz – a pedido da Secretaria Municipal de Planejamento. Na época, a pasta havia identificado o plantio irregular das espécies e em uma localização também irregular, que além de impossibilitar a construção de uma calçada no entorno da área verde podiam representar perigo à população.
“As árvores plantadas no local, eram em sua maioria exóticas. Tínhamos, por exemplo, limoeiros, uma espécie que contém espinhos e que pode ser perigosa para crianças. Encontramos também tipuanas, jacarandás, patas de vaca e ingazeiros. Todas essas espécies são consideradas irregulares para o local”, explicou o secretário. “Além disso, as árvores estavam plantadas na distância errada do meio-fio, o que tornava impossível a construção de uma calçada. Teríamos que colocar o cimento em volta dos troncos e raízes. E um cadeirante jamais poderia passar por ali”, declarou. Segundo ele, a execução do corte só aconteceu agora, aproveitando um mutirão de limpeza e de podas que a Secretaria fez em todo o bairro.  
Mas de acordo com Raul, houve ainda um outro grande motivo para a Secretaria de Planejamento ter solicitado o corte há cinco meses: as árvores impossibilitariam o andamento da reforma e construção de uma praça no terreno, um projeto de autoria do vereador Paulo Lersch (PT) com emenda parlamentar do deputado federal Marco Maia (PT). “O projeto já foi licitado e está em processo de contratação da empresa que fará a construção da praça. Para começar esse trabalho, falta apenas que o governo federal libere a verba”, afirmou Fritsch. Segundo ele, serão R$ 243 mil vindos da emenda parlamentar e R$ 88 mil de contrapartida do município.
No local serão construídas uma quadra de areia e playground, será feita pavimentação de algumas áreas e a rede elétrica para a instalação de luzes, será replantada toda a grama danificada durante o processo de obras e a Secretaria de Meio Ambiente também fará todo um trabalho de paisagismo no local. O secretário afirmou também que, se por questões de cortes de gastos, o dinheiro da emenda parlamentar não for repassado, a Prefeitura de Santa Cruz do Sul se responsabilizará por fazer alguma melhoria no local por sua própria conta.

Comunidade espera a reforma

Com relação à posição das árvores – a SMMASS alegou que algumas delas estavam ocupando o espaço da calçada e outras inclinadas em um barranco que há no terreno e que elas atrapalhariam nas reformas do novo projeto – Marguit explica que na época do plantio não havia calçamento na rua. Por isso, na hora de plantar, não foi calculado espaço de calçada. “Ela não existia, e nem existia um projeto”, afirma.
Além disso, Marguit explica que quando fizeram o asfalto, há alguns anos, as máquinas mexeram na terra, empurrando muitas das árvores em direção ao barranco. “Nós até amarramos elas na época para tentar preservá-las, e agora suas raízes estavam fazendo o trabalho de segurar a terra desse barranco”, comenta.
Agora, no entanto, segundo Marguit só resta à comunidade se conformar. “Esperamos apenas que esse projeto saia do papel e que as árvores sejam replantadas, como afirmou o secretário, através do trabalho de paisagismo. Lamentamos apenas que a gente tenha que esperar outros 10 ou 15 anos para ter o espaço bonito e fresquinho, com sombra, que nós tínhamos”, lamenta.

Para plantar, há regras

Realizar atividades de preservação ao meio ambiente, dentre elas o plantio de árvores é fundamental e de acordo com o secretário Raul Fritsch, a Secretaria Municipal de Meio Ambiente, Saneamento e Sustentabilidade apoia a comunidade em quaisquer iniciativas. No entanto, ela também alerta para a existência de algumas regras na hora de plantar as espécies.
De acordo com Fritsch, o ideal é que, toda vez que alguém quiser plantar em espaço público, seja em praças ou até mesmo na calçada, em frente às casas, a Secretaria seja procurada. Ele explica que ali são dadas orientações sobre as espécies mais adequadas e sobre as normas que devem ser observadas. Além disso, a Secretaria expede uma autorização de plantio para que não ocorram problemas posteriores. “Cada bairro, cada área da cidade tem suas características e recebe melhor determinadas espécies. Cabe a nós identificar e determinar quais são elas”, explica ele.
Algumas das questões que devem ser observadas são o tamanho das espécies e a existência de fiação elétrica, se a espécie é nativa ou não, se a espécie possui características adequadas para o lugar de plantio – uma árvore com espinhos por exemplo, não pode ser plantada em um local onde crianças tenham acesso. Há também questões relacionadas ao espaçamento entre as árvores e a rua, existências de canos de contenção das raízes no caso de calçadas, entre outras normas. Moradores que não cumprirem as normas podem ser advertidos, e em alguns casos até mesmo multados.


Raul Fritsch: “As árvores plantadas no local, eram em sua maioria exóticas”

Algumas espécies inadequadas                    Motivo
Canela-doce                                           Porte inadequado
Uva-do-japão                                            Proibição Legal
Ligustro                                                   Uso excessivo
Ficus, figueira-benjamin                           Porte inadequado
Tuia, cipreste                                           Proibição legal
Cinamomo                                             Porte inadequado
Plátano                                                 Porte inadequado
Ingá                                                      Porte inadequado
Tipuana                                                 Porte inadequado