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O controle que deu certo na Nova Zelândia

Santa-cruzense relata ações adotadas pelo país da Oceania no combate à doença

Tiago Mairo Garcia
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País implantou medidas e governo usou meios de comunicação como ferramenta para informar população sobre as ações adotadas no combate à doença – Divulgação

Nova Zelândia. País localizado na Oceania, com população de 4,886 milhões (dados de 2018), retornou hoje, 9, a normalidade das atividades após a pandemia do novo coronavírus. Com o primeiro caso registrado no dia 28 de fevereiro, o país realizou um bloqueio severo de sete semanas e graças ao trabalho da primeira-ministra Jacinda Ardem, uma líder política que se comunica de forma transparente e eficaz com sua população, o país da Oceania conseguiu controlar o avanço da doença. O fim do distanciamento social e a retomada das atividades foram confirmados pelo governo neozelandês após o país ficar 17 dias sem registrar novos casos ativos do vírus.

Moradores de Auckland, cidade mais populosa da Nova Zelândia, o santa-cruzense Diogo Böhm, 33 anos, e a namorada, a corretora de imóveis, Luciane de Souza, 30 anos, residem há quatro anos no país. Em entrevista concedida ao Riovale Jornal em contato por WhatsApp, Böhm, que atua no ramo de informática como técnico de desenvolvimento de software, relata como foi a rotina vivenciada pelo casal durante o período da pandemia e as ações desenvolvidas pelo governo no combate à doença. O santa-cruzense comemora a volta das atividades no país banhado pelo oceano pacífico e salienta a sua preocupação com a proliferação da doença principalmente no Brasil.

Diogo Böhm e Luciane de Souza comemoram a retomada da normalidade anunciada pelo governo da Nova Zelândia – Divulgação

Riovale Jornal – Quando teve início a pandemia do novo coronavírus na Nova Zelândia?

Diogo Böhm – Primeiro caso ocorreu em 28 de fevereiro.

RJ – Quais as ações foram tomadas pelo governo?

Diogo – O combate iniciou com o fechamento das fronteiras e a criação de um plano de ataque. A atividade no país foi dividida em quatro níveis, do nível um (tudo aberto, menos as fronteiras) ao nível quatro (lockdown total, só podem abrir serviços essenciais). Todo o território nacional compartilhou o mesmo nível de atividade. Iniciamos no nível quatro alguns dias depois do anúncio e foram estabelecidas metas de contágio para a troca de nível. O governo também criou um plano econômico de apoio aos empresários e população que não poderia continuar exercendo suas atividades, dando um auxílio financeiro por três meses (que terminou agora fim da semana passada) para incentivar as pessoas a manterem o isolamento físico, inclusive entre familiares que não moram na mesma casa. A polícia foi direcionada a manter esse sistema funcionando (monitorando grandes estradas e auxiliando comunidades), e coletivas diárias de imprensa para pronunciamentos com atualização dos números e ações foram montadas pelo governo para manter a população informada.

RJ – A primeira ministra Jacinda Ardem tomou medidas duras no começo que surtiram efeito. Como vocês enfrentaram esse período de isolamento no país?

Diogo – Para nós, foi tranquilo. Temos sorte de ambos conseguir continuar trabalhando, apesar de nossos empregos não serem essenciais, pois pudemos trabalhar de casa pela internet. Também moramos em um bairro menor e mais afastado de Auckland, sem muita fila para supermercado. Nessa hora, mais que anteriormente, os vizinhos passaram a auxiliar uns aos outros, especialmente aos idosos, fazendo compras e ajudando no que precisava (já que familiares não poderiam se deslocar). Esse senso de comunidade aflorou bastante na população em geral.

RJ – Hoje a Nova Zelândia conta com 1.154 casos confirmados e 22 óbitos, segundo dados atualizados pela OMS, sendo um dos menores números do mundo. Na sua opinião, qual medida adotada que deu certo para o país conseguir controlar o avanço da doença?

Diogo – Em termos de medidas, primeiramente o fechamento total cedo. Sabia-se que a doença iria progredir rápido e existia um senso de urgência. Fechar as fronteiras foi muito efetivo, visto que todos os casos tinham alguma ligação direta a pessoas que foram e voltaram de viagem. O plano de apoio econômico e as coletivas de imprensa ajudaram a manter a mensagem de que esse “sacrifício” seria necessário, mas temporário. O plano foi desenvolvido junto das nossas universidades, o que na minha opinião, evitou muito a criação de oposição a ele. A liderança da Primeira Ministra novamente se mostrou essencial e muito efetiva, mantendo essa confiança de que o governo tinha um plano e que estávamos no caminho certo. Outra coisa que foi essencial foi a infraestrutura de testes montada pelo Ministério da Saúde. Foi incrível ver o quão rápido foi fazer testes e receber os resultados. Tudo bancado por impostos, sem custo adicional para a população, incentivando o uso.

RJ – Como foi a retomada das atividades no país? A rotina voltou à normalidade?

Diogo – Hoje foi anunciado pelo governo que a partir da meia-noite (de terça, 9 de junho na Nova Zelândia, 9 h da manhã de ontem, 8, no Brasil. A Nova Zelândia tem 15 horas de fuso horário à frente em relação ao horário de Brasília), finalmente seriam retiradas todas as restrições (com exceção das fronteiras), e a vida volta ao normal. Coincidentemente o nosso ultimo caso ativo se curou hoje (8 de junho) e não temos novos casos a mais de duas semanas. Então, temos ainda mais razões para comemorar e apreciar o esforço do “time de 5 milhões de pessoas”, como a Jacinda gosta de dizer.

RJ – Como você está vendo a proliferação da doença pelo mundo. Você teme que o país seja atingindo novamente por uma nova onda da doença?

Diogo – Cada país escolhe atacar a doença de forma diferente, independente do nível de desenvolvimento. Temos bons exemplos de países em desenvolvimento (Vietnã) e maus exemplos de países desenvolvidos (Estados Unidos). Vejo que os países que seguiram as recomendações da OMS e procuraram seus cientistas para criar um plano tiveram mais chances de controlar o contagio. À medida que abrimos a fronteira novamente, teremos novos casos e isso e um fato. O foco do governo agora fica nas medidas de controle da fronteira, a fim de evitar novas transmissões na comunidade. Isso deixa a gente muito tranquilo sabendo que a situação interna esta mais que controlada.

RJ – A cada dia, o Brasil vem aumentando os números de casos e de óbitos. No momento, o país está atrás apenas dos EUA em números de casos. Já o Rio Grande do Sul e Santa Cruz do Sul apresentam números considerados baixos e com controle da doença. Santa Cruz, por exemplo, registrou apenas um óbito. Como você tem visto a proliferação da doença no Brasil?

Diogo – Sem testes em larga escala para a população, não temos como saber o real número de infectados no Brasil. A grande maioria dos infectados será assintomática, e não ira fazer o teste de forma voluntária (principalmente se precisar pagar para tal). Dessa forma, fica muito difícil rastrear o contagio e isolar essas pessoas para conter novos casos. Por isso, acredito que sem medidas mais drásticas, os números só tendem a crescer. Os casos (e mortes) no Brasil não param de aumentar e, devido ao mantimento das atividades econômicas, acredito que seja questão de tempo para que os casos aumentem em todas as regiões. Santa Cruz do Sul está hoje em uma situação privilegiada para evitar a proliferação, porém, para isso, precisa manter o nível de atividade baixo por enquanto. Toda a nossa família mora no Rio Grande do Sul. Assistimos os desenvolvimentos da Covid pela internet e ficamos sempre muito tristes. O sentimento de impotência e a ansiedade são muito grandes. Temos muita sorte de estarmos bem e seguros aqui, mas ao mesmo tempo, é muito doloroso acompanhar o Brasil de longe e ver o avanço da doença no país.

RJ – Seguindo os métodos adotados pela Nova Zelândia, o que os brasileiros devem fazer para controlar a doença?

Diogo – Primeiramente, liderança forte com um plano solido criado junto à comunidade científica. Acredito que sem uma mensagem e missão única em todos os níveis de governo, não há como ganhar o apoio da população. Jogo político tem momento, e não deveria acontecer em uma situação séria de saúde pública. Em segundo lugar, dar devido apoio à população que realiza serviços essenciais, fornecendo equipamento e condições de trabalho que garantam sua segurança, e apoio à população que não poderá trabalhar, fornecendo auxílio financeiro, para que as medidas de isolamento possam ter a oportunidade de ganhar tração. Terceiro, tratar a doença com seriedade. Muitos de nos não fazemos parte da chamada “população de risco”, provavelmente não teremos sintomas ou complicações se infectados com o vírus. Precisamos, porém, cuidar das pessoas que não têm essa sorte, mesmo que isso signifique continuar o isolamento. Trazer esse senso de comunidade de volta às comunidades pra mim e imprescindível para ter sucesso no controle da doença.