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Crianças e adolescentes do Programa Arise mostraram habilidades desenvolvidas em apresentações artísticas e culturais
“Criança não pode trabalhar”. Esta frase faz parte de uma poesia produzida por duas estudantes participantes do Programa Alcançando a Redução do Trabalho Infantil pelo Suporte à Educação (Arise). A declamação desta e de outras poesias, bem como diversas apresentações artísticas e culturais, foram atração na 1ª Mostra Pedagógica Regional do programa, que aconteceu nesta quinta-feira, 4 de dezembro, no Clube 25 de Julho, em Arroio do Tigre, na região Centro Serra do Vale do Rio Pardo, com a participação de 400 pessoas, entre alunos, professores, pais e convidados. O Programa Arise, que foca suas ações na valorização da educação e no combate ao trabalho de crianças e adolescentes nas lavouras de tabaco, liderado pela Organização Internacional do Trabalho (OIT), Winrock Internacional (WI) e JTI, com apoio de prefeituras da região, comemora os resultados de três anos de atividades no combate ao trabalho infantil. “Nós temos a grande satisfação de terminar o ano com mais de mil crianças participando de atividades no turno inverso”, comemorou a diretora da WI no Brasil, Luísa de Siqueira.
O evento, que iniciou pela manhã, contou com a presença do diretor de Assuntos Corporativos da JTI, Flavio Goulart; da oficial de Projetos da OIT, Márcia Ustra Soares, dos prefeitos dos municípios que participam do programa: de Arroio do Tigre, Gilberto Rahtke; de Ibarama, Lenise Lourdes Lazzarotto Mariani; de Lagoa Bonita do Sul, Gilnei Arlindo Luchese; e de Sobradinho, Luiz Affonso Trevisan; do presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Arroio do Tigre, Alceu Merge, além de outras autoridades. Todas as lideranças, que falaram durante o cerimonial, mostraram-se satisfeitas com o programa e entusiasmadas com a possiblidade de continuar fazendo parte dele.
Goulart lembrou do início da parceria e das dificuldades de tratar o tema delicado. “Entendemos hoje que a criança é capaz, sim, de produzir, como tem demonstrado. Produzindo arte, cultura e educação”, destacou. Conforme o diretor, o intuito é ter pessoas mais bem formadas, conscientes do seu papel na sociedade, que entreguem a sua geração um ser humano mais digno e uma comunidade mais consciente. “Hoje é um momento muito especial e esperado por todos, de conhecermos o que foi desenvolvido nestes três anos de programa”, finalizou.
Já a oficial de Projetos da OIT, Márcia Soares, falou sobre importância do trabalho desenvolvido em parceria. Conforme ela, o trabalho infantil é atualmente uma das principais violências contra a criança e o adolescente. “Nós viemos para cá com a tarefa também muito especial de construir outras oportunidades, trazer uma mensagem da legislação e também uma mensagem de sensibilização da comunidade para este problema”, explicou.
Após o cerimonial, conduzido pela apresentadora e jornalista Maria do Carmo, as crianças e adolescentes representantes de 10 escolas participantes do Programa Arise mostraram todas as habilidades desenvolvidas em apresentações artísticas e culturais. Entre as atrações estavam música e violão, poesia e teatro. O local também abrigou umae exposição dos trabalhos desenvolvidos pelos estudantes e mães participantes das oficinas de artesanato e de educação ambiental.
PESQUISA
No início da tarde, as professoras e pesquisadoras do Núcleo de Pesquisas Sociais (Nupes) da Universidade de Santa Cruz do Sul (Unisc), Cláudia Tirelli e Carmen Regina Menezes de Morais, apresentaram os resultados do levantamento realizado sobre o Programa Arise junto à comunidade regional. Na pesquisa, realizada entre os dias 12 e 20 de maio de 2014, os índices de satisfação com relação às ações no contraturno, Curso de Técnicas Agrícolas e Gestão e Cursos de Qualificação para Mulheres Rurais chegam a 100%. Do universo pesquisado, 89,6% das famílias têm o tabaco como fonte de renda. Para 70% dos entrevistados, a ajuda de crianças de zero a 12 anos na colheita é trabalho infantil. E 76% disseram que jovens entre 13 e 17 anos ajudando na colheita não é trabalho infantil. Conforme a pesquisa, o trabalho realizado pelos jovens ainda está presente, mas crianças com até 10 anos de idade não são mais encontradas na colheita do tabaco. A percepção de trabalho infantil, após as ações do Arise no município, mudou a visão de 56,9% dos agricultores. A razão maior foi a diferença entre trabalho e tarefa, que somou 45,30%.
Entre os avanços da iniciativa apontados pela pesquisa estão a desnaturalização do trabalho infantil; consciência da diversificação; reforço da identidade de jovem rural e permanência no campo; proteção das crianças por meio das oficinas de contra turno; e contribuição para outras ações do município. Já os desafios englobam a sustentabilidade e abrangência das ações; aplicação dos conhecimentos e necessidade de diálogo com os pais; cursos de mães não constituem uma alternativa efetiva de renda; subnotificação, impasses entre a formação para o meio rural e a legislação; e diaristas no meio rural.














