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Qual a realidade dos hospitais durante a pandemia?

Diante do novo cenário mundial no setor da saúde, devido ao enfrentamento à pandemia da Covid-19 (Coronavírus), uma outra realidade passou a ser enfrentada pelos hospitais. Já não bastasse a histórica dificuldade de custeio dessas instituições, o atual momento passou a exigir esforços também na busca de soluções conjuntas com os setores público e privado para ampliar e melhorar suas estruturas de saúde com o objetivo de dar suporte e atender à população durante a pandemia.

Essa nova realidade impôs uma mudança urgente de postura aos hospitais que, mesmo diante de suas dificuldades financeiras, precisaram se readequar para atender pacientes com suspeita ou confirmação da doença. Novos leitos de UTI tiveram que ser disponibilizados diante da necessidade de muitos pacientes precisarem receber cuidados intensivos e muitas estratégias foram pensadas para que fosse possível absorver a nova demanda sem comprometer o fluxo dos demais atendimentos. Um desafio e tanto!

Desde os primeiros casos da Covid-19 no estado e região, vemos circular notícias sobre os repasses de verba federal, estadual e municipal para que as instituições de saúde pudessem melhorar sua estrutura para atender a população durante a pandemia. Mas a pergunta é: os repasses, e também as doações de pessoas físicas e jurídicas, tiraram os hospitais da crise financeira em que estavam?

Para entender esse novo cenário e esclarecer esta dúvida, conversamos com o administrador do Hospital Ana Nery, de Santa Cruz do Sul, Gilberto Antonio Gobbi, presidente do Sindicato dos Hospitais Beneficentes, Religiosos e Filantrópicos do Vale do Rio Pardo.

Gilberto, antes de mais nada, acho que é válido mencionar as mudanças enfrentadas pelos Hospitais neste período de pandemia.

G: A pandemia apresentou uma nova realidade para o setor hospitalar, impactando fortemente na organização interna, pois nos forçou a criar espaços específicos para o atendimento da Covid-19, praticamente dividindo o hospital em dois e com isso a necessidade de termos equipe de atendimento exclusiva para essa doença, com aumento significativo no custo do atendimento. Concomitante e em função do Coronavírus, recebemos a determinação de afastar os funcionários do grupo de risco e dos com mais de 60 anos, reduzindo nosso quadro de colaboradores e nos impondo a necessidade de repor esses funcionários, aumentando custos, principalmente nos hospitais menores. Somando a isso, tivemos um aumento estratosférico no preço dos equipamentos de proteção individual, como máscaras, luvas e aventais, onde apenas para exemplificar, as máscaras que antes da pandemia nos custavam menos de R$ 0,10 (dez centavos) a unidade, saltou para mais de R$ 3,00 (três reais) por unidade, o que também ocorreu nos demais itens.

Por outro lado, os hospitais de um modo geral, tiveram uma redução muito significativa nas receitas em função do cancelamento dos procedimentos eletivos e uma brutal queda na procura pelos serviços hospitalares por parte dos pacientes, sendo que alguns setores tiveram uma redução superior a 70%.

Estes dois fatos somados, o aumento significativo nos custos e a redução nas receitas, agravaram ainda mais a situação financeira vivenciada pelas instituições hospitalares.

Ainda antes da pandemia, as notícias sobre a crise financeira enfrentada pelos hospitais eram recorrentes nos meios de comunicação. O que levou a esta crise? Teve algum agravante?

G: O setor Saúde como um todo enfrenta problemas financeiros a longa data, principalmente os filantrópicos, que em nossa região representa praticamente 100% dos leitos de internação disponíveis. Digo principalmente, visto que temos na capital e, em algumas cidades do interior, hospitais públicos, onde todas suas despesas são custeadas pela união, com custo de quatro a cinco vezes superiores aos nossos. Já para o setor filantrópico são pagos valores determinados por procedimentos ou por internação que são insuficientes para cobrirem os custos efetivos destes atendimentos. Estas tabelas remuneratórias, infelizmente, estão sem nenhum tipo de reajuste ou recomposição a mais de uma década. Ou seja, estamos há mais de 10 anos, vendo nossos custos mensais com medicamentos, oxigênio, energia elétrica e principalmente mão de obra, aumentarem e nossas tabelas remuneratórias continuarem iguais. Este fato aumenta a cada mês o abismo entre custo e remuneração, nos levando a buscar na rede bancária e outras fontes, formas de equilibrarmos esta balança, para continuar a prestar o serviço a toda a população. Este é, sem dúvida, o fator determinante da grave situação financeira vivenciada pelos hospitais filantrópicos de nossa região, do estado e do país.

Falando especialmente sobre os hospitais da região, antes da pandemia, qual era a dívida destas instituições?

G: Vivemos numa região privilegiada, onde as comunidades ergueram e mantém seus hospitais através de trabalhos e doações diversas, amenizando o impacto proporcionando pelas tabelas remuneratórias do SUS. Entretanto, isso nem sempre é possível, principalmente por ser uma situação constante e cada vez maior. Isso acabou gerando dívidas de diferentes tamanhos, dependendo do nível de investimento que cada hospital se obrigou a fazer ao longo dos anos, sendo que temos hospitais com dívidas que chegam à 12 meses de faturamento do hospital, ou seja, toda a produção do ano está comprometida com a dívida existente, que se retroalimenta através dos juros, prejudicando cada vez mais as instituições filantrópicas.

No mês de março tivemos registro dos primeiros casos de Covid-19 no Rio Grande do Sul e, não muito depois, na região. De lá para cá, os problemas financeiros dos hospitais se mantiveram? Ou tiveram um aumento ou redução?

G: Como visto anteriormente tivemos, sem dúvida, um agravamento do quadro de todos os hospitais, com aumento da dívida em virtude da necessidade de montarmos novas estruturas, vermos nossas despesas aumentarem e nossas receitas diminuírem. Alguns hospitais contaram com o auxílio fundamental dos prefeitos municipais alcançando recursos para montarem essas estruturas e enfrentarem esse momento de extrema dificuldade, mas isso nem sempre é uma unanimidade. Aliás, é importante frisar a importância dos municípios para a manutenção dos hospitais filantrópicos, pois são eles que têm feito um esforço enorme para amenizar a situação dos hospitais e sem as quais, muitos já teriam sucumbidos dentro deste cenário desafiador.

Agora falando especificamente sobre os repasses recebidos do governo, tanto federal, quanto estadual e municipal. Eles foram suficientes para suprir as necessidades das casas de saúde? Foi o suficiente para tirar os hospitais da crise?

G: Muito se tem falado e divulgado nos últimos dias a respeito de verbas milionárias a serem destinadas aos hospitais filantrópicos. Temos visto muita mídia e pouca efetividade. Estes recursos não têm chegado nos hospitais, como seria o ideal. Como falado anteriormente, alguns hospitais receberam recursos de suas Secretarias Municipais. Temos recebido do Estado EPI’s e alguns equipamentos para enfrentar o Coronavírus e por parte do Ministério da Saúde e da União, tivemos a antecipação dos pagamentos de emendas parlamentares, que não é dinheiro novo, pois já estavam no cálculo financeiro dos hospitais, tendo havido apenas a antecipação. É importante e muito bem-vindo, mas não se trata de recurso novo.

De valores adicionais, o Ministério da Saúde pagou um valor extra equivalente a um mês do teto da Alta e Média Complexidade, que são baseados nos atendimentos hospitalares, onde cada hospital tem gestionado com o Município o recebimento destes valores e recentemente tivemos a aprovação da Lei 13.995/2020, que disponibilizará valores adicionais a serem distribuídos aos hospitais para o enfrentamento da pandemia.

E para finalizar, sabes se teve algum critério adotado pelo município, estado e união para destinação dos repasses? Todas as instituições de saúde que têm atendido casos de COVID-19 receberam os mesmos recursos?

G: Cada município estabeleceu os seus critérios para a distribuição de recursos, de acordo com a realidade de cada hospital. A União aprovou o valor a ser distribuído, mas ainda não divulgou quais serão os critérios a serem adotados para isso. Rogamos que os critérios sejam técnicos e justos, como forma de termos uma formatação de recursos que auxiliem a todos os hospitais, evitando favorecimentos, pois todos os hospitais necessitam destes e de futuros recursos para sua sobrevivência e continuidade dos atendimentos a todos.