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Seminário reúne jovens e agricultores

LUANA CIECELSKI
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Recheado de palestras, painéis, oficinas, músicas e troca de experiências, aconteceu em Santa Cruz do Sul nessa quarta e quinta-feira, dias 18 e 19 de outubro, a terceira edição do Seminário Regional de Agroecologia da Articulação em Agroecologia do Vale do Rio Pardo. O evento foi realizado junto à sede da Escola Família Agrícola de Santa Cruz (EFASC) em Linha Santa Cruz com o tema “Sementes Crioulas, Sementes da Vida”. 

Aberto à comunidade, o evento tem como principais objetivos proporcionar um momento de discussão e de troca de informações e conhecimentos – para quem já utiliza o sistema em sua propriedade – e auxiliar em uma mudança cultural no campo, mostrando que é possível uma agricultura menos agressiva com o meio ambiente, e incentivando, assim, mais pessoas a adotarem sistemas como o das sementes crioulas e cultivo orgânico. 

Seminário teve grande participação de jovens, tanto na plateia quanto nas apresentações e painéis

Nesse sentido, um dos eventos mais impactantes do seminário, pode ter sido o realizado na tarde de quarta-feira. O painel “Vivências e experiências agroecológicas no Vale do Rio Pardo” trouxe sete agricultores e os depoimentos deles sobre atividades de agroecologia realizadas em suas propriedades. Durante toda a tarde o grupo contou os desafios que enfrentou para começar a trabalhar com agroecologia, como se desenvolveu o trabalho e quais os frutos que colhe hoje. 

João Paulo Reis Costa, um dos organizadores do evento, Coordenador da Articulação em Agroecologia do Vale do Rio Pardo e professor da EFASC destacou fortemente a presença de jovens e de agricultores no evento. Eles estão aqui e não apenas na plateia, mas palestrando, trazendo suas histórias, compartilhando conhecimentos. Metade dos que vão palestrar nesses dois dias são jovens e praticamente todos os envolvidos são agricultores”. E esse detalhe, aponta ele, é muito importante. “A troca de informações é mais rica, mas acima de tudo, um evento sobre agricultura agroecológica, precisa ser para agricultores, feita por eles, porque se não fica-se apenas na teoria, uma teoria vazia”. 

Durante os dias de evento, participaram das atividades, grupos pertencentes a escolas, universidades e comunidades vindos de diversas cidades do Rio Grande do Sul, além, é claro, de professores, alunos da EFASC e pessoas da comunidade local.

É POSSÍVEL, SIM!

Durante a tarde de quarta-feira, 18 de outubro, um grupo de agricultores e de estudantes da Efasc que adotam a agroecologia em suas vidas e propriedades, falou aos presentes e buscou contar suas histórias, a fim de mostrar que uma agricultura que trabalhe em parceria com a natureza é possível, e tem suas vantagens. Entre os depoimentos que se destacaram, estava o do agricultor Perci Frantz, dono de uma propriedade em São Martinho. 

Há 6 anos ele vem investindo na produção de bananas orgânicas. Para conseguir sucesso, Perci estudou sobre estercos e desenvolveu técnicas de manejo das plantas espontâneas – aquelas que nascem por conta em determinada região. Ele deixa essas plantas crescem em torno da plantação, e depois as roça e deixa apodrecendo. Dessa forma, microvida se cria e dá força às plantas cultivadas. “As plantas espontâneas não tiram a força da terra”, disse ele mostrando a fotografia de uma laranjeira carregada em meio às plantas espontâneas. “Elas apenas trazem benefícios, porque depois de roçadas, dão força para a plantação enquanto crescem novamente”, compartilhou ele. 

Mais ou menos da mesma forma trabalha o agricultor Joel Paz de Albardão (Rio Pardo). Ele também trouxe sua história durante o seminário. Há cerca de 3 anos ele trabalha com agroecologia e só tem elogios. “Quando plantei fumo, me sentia um peão das empresas e por isso decidi mudar. Então não podia escolher um sistema em que eu dependesse de sementes de fora. Por isso eu escolhi a agroecologia”, conta. “Na agroecologia tu trabalha com a natureza de forma que ela te ajude e tu ajude ela”. 

Por fim, outro exemplo bacana de agroecologia apresentado, foi o do casal Clécio e Lori Weber de Venâncio Aires. Ambos iniciaram com o plantio de frutas e verduras. Depois de alguns anos trabalhando em parceria com outros agricultores em feiras, o casal resolveu abrir sua própria agroindústria familiar, tendo como principal produto derivados de cana – como açúcar e melado -, cultivada por outros feirantes. “A gente vem tentando resgatar práticas que eram comuns no tempo de nossos pais, como as parcerias, os mutirões e as trocas, tudo de forma muito solidária. Porque agroecologia é isso”, apontou o casal. 

Clécio e Lori Weber conseguiram abrir sua própria agroindústria familiar graças a agroecologia

POR QUE FALAR DE SEMENTES CRIOULAS?
As sementes crioulas são aquelas sementes que não são geneticamente modificadas em laboratório ou por manuseio humano, não passam por nenhum tipo de transformação induzida. São sementes que são alteradas única e exclusivamente pela natureza. São conhecidas também como as sementes tradicionais. Elas vão se adaptando ao ambiente e se tornando cada vez mais rústicas de acordo com o ambiente onde ela está inserida. Costumam ficar durante diversas gerações em uma família. 

Sua utilização está diretamente ligada a um sistema de cultivo menos agressivo, mais orgânico e mais saudável para a natureza, para o agricultor e para os consumidores. “E um dos grandes debates que se faz hoje, não só no campo da agroecologia, é justamente a questão da alimentação saudável”, aponta João Paulo. “Especialmente no Brasil, isso é muito necessário”, comenta ainda. 

Isso porque o país é o maior consumidor de veneno do mundo. Atualmente 19% de todo o veneno colocado no planeta é consumido pelo Brasil. A cada 5 litros, um deles é colocado no alimento do brasileiro. Isso representa um consumo de cerca de 14 mililitros (ml) por habitante, ao dia e 5,2 litros de consumo por ano. “Então debater o alimento saudável na gondola do supermercado e na feira é importante, mas a gente quer debater o alimento saudável lá na origem também”, explica.