Início Sem categoria Uma paixão de cinema

Uma paixão de cinema

Cristiano Silva
[email protected]

Cristiano Silva

Seminários de Cinema e Estética e Cultura Midiática são duas
das disciplinas que Josmar Reyes ministra na Unisc
 
O que nos faz se apaixonar por algo? O que nos faz se aproximar, querer saber mais, se inteirar do assunto que diz respeito a alguma coisa, objeto, pessoa ou mesmo uma forma de arte? Difícil achar uma resposta. Fiz essa pergunta a Josmar Reyes – professor da Universidade de Santa Cruz do Sul (Unisc) e pesquisador de cinema – em um charmoso e aconchegante Caffés Brandelero na rua Júlio de Castilhos, no centro de Santa Cruz do Sul, local onde o maravilhoso cheiro de café expresso se mistura a bela vista da Praça Getúlio Vargas à frente do local. “Não tenho a menor ciência do porque de nos apaixonamos por alguma coisa”, respondeu Josmar, que logo deu sequência a uma tese para explicar o seu fascínio pelo cinema. “Mas eu me lembro que na minha infância, aqui em Santa Cruz havia o ritual das matinés de cinema, que todo mundo ia. Acontecia aqui nesta rua mesmo, Júlio de Castilhos, no Cine Apollo”, lembra. 
“Eu morava há duas quadras do local e ia ao cinema nos domingos, como era ritual de todo mundo. Havia uma sessão às 14h e outra às 16h. Passávamos a tarde no cinema, o qual era a grande atração da cidade no final da década de 60” revelou Josmar, que teve este ponto como marco inicial na sua vida em relação ao cinema, marco este que passou de ritual esporádico dos finais de semana a paixão logo na juventude. “Esse ritual se perpetuou e pra mim se tornou um ritual de vida. Fui de Santa Cruz para Bagé e aí sim, não apenas como ritual, mas como hábito eu ia ao cinema” completa o cinéfilo, que assistia de tudo. Filmes nacionais, internacionais, passando por qualquer gênero, mas com uma ressalva: “Geralmente eu via os filmes que tinham mais publicidade. Eu não tinha esse crivo e nem a maturidade pra descobrir outras filmografias, mas assistia de tudo um pouco” destacou Reyes.
 
MARCO DIVISÓRIO
 
Voltando para Santa Cruz e vivendo na cidade dos 13 aos 17 anos, Josmar foi fazer faculdade de Letras em Porto Alegre, e lá descobriu as grandes possibilidades que a capital poderia trazer dentro da sua paixão. “O marco divisório que eu passo de ritual de final de semana para uma paixão e começo a escolher e ter um crivo em relação aos filmes foi quando fui para Porto Alegre. Lá, eu tinha um anseio de buscar coisas diversas e fui descobrindo todo esse cinema internacional e com sede e vontade. Foi um empenho pessoal sem dúvida, mas os meios me facilitaram como a própria maturidade que fui adquirindo no ensino”, enfatiza Josmar.
O fácil acesso a filmes não comerciais também fez o fascínio do cinéfilo aumentar. “Porto Alegre tinha essa diferenciação. Havia cinema que apostavam nos ‘blockbusters’, que queriam bilheteria, mas havia salas que se propunham a oferecer uma programação alternativa, que queriam ser marcadas como salas de artes, com repertório de cinema diferente, aí virei um expectador desses filmes e dessas salas. Dessa maneira eu descobri todo o cinema europeu, latino americano, cinema brasileiro, entre outros” comenta.
Reyes seguia assistindo também o grande cinema americano, mas com crivo. “Mesmo vendo esse outro lado do cinema, continuei assistindo os grandes diretores do cinema americano como Martin Scorsese, Woody Allen, Francis Ford Coppola e outros”.
 
ERA DE OURO DO CINEMA
 
Divulgação/RJ

Em uma de suas passagens pela França, Josmar (d) se encontrou com
um dos seus diretores preferidos: Pedro Almodóvar (e)
 
Segundo Josmar, houve um período que o cinema se destacou. “O período entre as duas guerras mundiais foi muito propício para o grande desenvolvimento e popularização do cinema” destaca Josmar, que garante não ser nostálgico em se tratando do avanço das tecnologias na 7ª Arte. “Não sou nostálgico. O que passou, passou, e acho que na verdade podemos sempre ter ganhos. O fundamental é estar na sala de cinema, ver o impacto na tela, o ritual de sentar naquela cadeira, aquelas horas de isolamento. Isso tu não tens em casa assistindo no teu notebook ou computador. Em casa ou outros locais há interferência de celular tocando, pessoas falando, ali na sala de cinema não, então eu acho que só vou me tornar nostálgico no momento que não houver mais salas de cinema” sorri Josmar.
 
INCENTIVO
 
Idealizador da Associação Amigos do Cinema em Santa Cruz do Sul nos anos 90, grupo que promove até hoje sessões de cinema alternativas gratuitas, Josmar Reyes crê na política de incentivo cultural como fundamental alicerce para o acesso à cultura, e cita sua passagem na França como exemplo de política que deu e dá certo. “Lá na França há, de fato, incentivo. Aqui as coisas acontecem e quem usufrui são os que se interessam, e eventualmente ações pontuais de interesse de um ou outro. Lá, de fato, há uma política cultural partindo de iniciativas governamentais de políticas públicas para a cultura, não só através do comprimento na formação escolar voltada às artes, como todos os meios de acesso que estão lá disponíveis”, comenta.
Conforme o professor há fluxos, canais da escola para esses meios. “Ao mesmo tempo em que os jovens estudam podem ir ao museu, cinema, concertos de música, entre outros formas artísticas, e isso cria uma sociedade mais democrática onde se pode buscar mais diversidade” exemplifica Josmar. O cinéfilo finaliza revelando não ter apenas um filme ou diretor preferidos. “Eu gosto de tanta coisa que eu nunca tive um filme ou um diretor preferidos. Eu tenho muitos filmes, diretores, atores que gosto tanto. Desde a década de 20, existe grandes filmes que marcaram minha vida, não um, dois, três ou quatro, mas inúmeros filmes” completa o cinéfilo, que mostra ter no cinema, uma fonte inesgotável de cultura e paixão.