Início Geral Conflito entre EUA e Irã pode trazer consequências

Conflito entre EUA e Irã pode trazer consequências

Aiatolá Ali Khamenei (ao centro) participou do funeral de Soleimani em Teerã

Grasiel Grasel
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Na última quinta-feira, dia 2, um ataque aéreo autorizado pelo presidente americano Donald Trump matou o principal general do Irã. Qassem Soleimani era um dos homens mais poderosos do país, considerado tão importante quanto o presidente do país e respondia diretamente ao líder supremo da nação iraniana, aiatolá Ali Khamenei, que prometeu vingança. O fato levantou temores de uma possível guerra que poderia tomar proporções globais.
Uma das principais consequências do conflito pôde ser sentida imediatamente após a confirmação do ataque: na sexta-feira o preço do barril fechou em alta de 3,6%, a US$ 68,60 e, na tarde da última segunda, dia 6, tocou a máxima de US$ 70,74, maior nível desde maio do ano passado.
De acordo com o professor de Relações Internacionais da Universidade de Santa Cruz do Sul (Unisc), Bruno Mendelski, o preço do petróleo ainda pode aumentar em decorrência do conflito. “Há muita incerteza no mercado internacional. Nesse sentido, o preço dos combustíveis tende a aumentar”, explica. Além de ser um dos maiores produtores de petróleo e gás natural no mundo, o Irã possui uma influência muito forte sobre o estreito de Ormuz, que separa parte do país dos Emirados Árabes e é a principal zona de escoamento do petróleo do Golfo Pérsico.
Com a nova política de definição de preços da Petrobras, alterada durante o governo Temer e mantida por Bolsonaro, o valor do combustível muda de acordo com variações do mercado. Segundo Mendelski, isso pode aumentar os custos de produções que dependem de transporte movido a combustão e, consequentemente, gerar maiores impactos no bolso dos brasileiros.

General era considerado herói na Força Al Quds, unidade especial da Guarda Revolucionária do Irã

Brasil em uma guerra?
Assim que a notícia do ataque americano e da promessa de vingança iraniana se espalhou, imediatamente os brasileiros manifestaram medo de que o país se envolvesse em uma terceira guerra mundial. Os memes, claro, protagonizaram a situação, mas especialistas não acreditam que a possibilidade venha a se tornar realidade.
Mestre na área, o professor de Relações Internacionais lembra que o Brasil só costuma se envolver em conflitos com chancela da ONU, em ações de âmbito multilateral. “É impensável, pelo menos em um primeiro momento, que o Brasil vá se envolver de uma forma direta, militar, no conflito, enviando tropas para lutar ao lado dos Estados Unidos. O Brasil historicamente não tem essa postura”, diz.

Possibilidade baixa e custos altos
Sobre a possibilidade de uma guerra, o especialista diz que não acredita que um conflito direto se inicie mesmo que apenas entre os dois países. “A minha posição e de praticamente todos os analistas com quem conversei é que não há elementos suficientes para isto. O Irã é uma potência regional, mas não possui o aparato capaz de rivalizar com os Estados Unidos”, explica Mendelski. De acordo com ele, nem mesmo aliados mais poderosos, como China e Rússia, estariam dispostos a pagar o preço político de defender o Irã.
Da mesma forma, uma escalada dos EUA na ampliação do conflito dificilmente viria a acontecer, pois o presidente Donald Trump não estaria disposto a colocar vidas de americanos em jogo. Até o momento, todos os ataques realizados pelo exército dos Estados Unidos no Oriente Médio foram intermediados por drones operados à distância. “Não há tropas no chão, lutando, isso minimiza a perda de vidas americanas, isso geraria muita pressão na opinião pública para os governantes”, diz o professor.

Filha do general disse que a morte do pai trará

Diplomacia é o caminho
Segundo Mendelski, a diplomacia é fundamental para garantir que os acontecimentos não gerem cada vez mais violência entre EUA e Irã. “Algumas das principais potências europeias e asiáticas já se manifestaram pela manutenção dos ânimos e o não-aumento da violência. Pediram que próximas decisões sejam tomadas de forma multilateral, como através da ONU”, afirma.
Para o professor, o Brasil pode aproveitar sua influência com ambos os lados do conflito para garantir uma diminuição dos ânimos. “O Brasil poderia contribuir se colocando como um país mediador do conflito. O Brasil tem uma relação muito boa com os países do Oriente Médio, com os países muçulmanos, árabes, mas também com Israel e com os Estados Unidos”, explica, dizendo que o país poderia ser mais ativo em sua política externa e “não apenas ficar concordando com a política externa mais agressiva dos Estados Unidos”.

Um funeral de ameaças
O funeral do general iraniano acontece desde sábado e terá duração de quatro dias. Na manhã dessa segunda-feira, dia 6, na capital Teerã, a filha do militar, Zeinab Soleimani, afirmou em uma homenagem que a morte de seu pai “trará dias mais escuros” para os Estados Unidos e Israel. A jovem afirmou que o “plano maligno” do presidente americano, Donald Trump, de causar separação entre o Iraque e o Irã, falhou.
O ex-ministro da Defesa iraniano e atualmente conselheiro militar do país, Hossein Dehghan, afirmou à CNN que “a resposta (ao ataque que matou Soleimani) será com certeza militar e contra alvos militares”. O receio vem do Irã poder utilizar armas nucleares em um ataque, pois seu governo anunciou que voltaria a enriquecer Urânio, deixando de respeitar o acordo nuclear que firmou em 2015.