Início Geral Festas juninas da rede estadual de ensino devem ficar sem lanches típicos

Festas juninas da rede estadual de ensino devem ficar sem lanches típicos

LUÍSA ZIEMANN
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Uma orientação da Secretaria Estadual de Educação (Seduc) tem gerado indignação em diretores, pais e alunos das escolas estaduais de Santa Cruz do Sul. Após dois anos sem as tradicionais festas de São João, em virtude da pandemia, o retorno dos “arraiás” aparentemente não vai ter o mesmo sabor este ano: em função das novas legislações que restringiram os alimentos que podem ser servidos e colocados à venda nos educandários, as celebrações não estão autorizadas a incluir lanches típicos, como cachorro-quente, espetinho de carne, pastel, cocada e pé-de-moleque.


A Seduc possui uma nutricionista responsável pelo planejamento e elaboração dos cardápios das escolas da rede estadual. O menu contempla a utilização de gêneros básicos, respeitando os hábitos alimentares locais e culturais e a tradição da localidade. Com alimentos como arroz, feijão, aipim, batata doce, lentilha, carne moída e frango nos almoços, o objetivo é oferecer uma alternativa saudável e balanceada para crianças e adolescentes. Os lanches são compostos por pão com nata, biscoito de polvilho, vitamina de morango, pão caseiro com manteiga, entre outros itens.


Conforme o gestor da 6ª Coordenadoria Regional de Educação (CRE), Luiz Ricardo Pinho de Moura, a orientação acerca dos alimentos que podem fazer parte das tradicionais festas juninas escolares foi repassada através de um ofício enviado no dia 7 de abril. “Todas as escolas da rede estadual de abrangência da 6ª CRE foram orientadas. Inclusive nesse documento fala de todas as datas comemorativas, até mesmo das festinhas escolares internas”, salienta.


Moura lembra que os alimentos e bebidas permitidos nas festividades de São João devem seguir as instruções estabelecidas pelo ofício. Sem pé-de-moleque, nega-maluca, cocada e nada de frituras ou refrigerantes, a Seduc sugeriu a troca de itens mais calóricos por opções mais saudáveis. “Sobre a festa junina, citamos incluir alguns alimentos como canjica salgada e doce, polenta com molho de carne, pipoca, bolo de milho, pinhão, pastéis assados, entre outros”, exemplifica o coordenador regional.


Além disso, o conhecido cachorro-quente, que não costuma faltar no São João, também deve ganhar outra versão, mais nutritiva: com molho de frango ou carne moída de gado, e a salsicha sendo substituída por cenoura picada ou em rodelas. As bebidas devem seguir a mesma linha, sendo permitido quentão de suco de uva, sucos de frutas 100% naturais e leite com achocolatado. “Também já foi encaminhado para as escolas o documento 347/2020, que veda bebidas de álcool em festas juninas e outros festejos escolares”, reforça Moura.


Os professores e diretores devem conscientizar os estudantes a respeito da necessidade de ingestão de alimentos e bebidas mais saudáveis e nutritivos. A decisão, porém, não tem agradado os educandários santa-cruzenses. Para a diretora da Escola Estadual de Ensino Médio Ernesto Alves de Oliveira, Janaína Venzon, as orientações da Seduc não levam em consideração a realidade escolar. “Estamos lamentando tudo isso. Quem cria essas regras nunca pisou no chão de uma escola”, dispara.


A diretora lembra que a festa junina é uma tradição que envolve música, dança, apresentações artísticas e, principalmente, gastronomia. “Estão tirando a oportunidade das crianças vivenciarem algo que eles mesmos (que emitiram as orientações) tiveram a oportunidade de viver”, salienta. “Toda essa burocracia está afastando a comunidade da escola. As festividades não são apenas para os estudantes, reúnem também os familiares e os pais das crianças, que são os responsáveis legais e que decidem se os filhos podem ou não comer determinado alimento.”


Janaína ainda diz que a escola tem o apoio dos pais, que ficaram sabendo da situação através de uma postagem no Facebook da Ernesto Alves. “Estamos recebendo muitas mensagens que demonstram a indignação dos pais. A gente sabe que, mesmo que certos alimentos sejam proibidos na escola, do portão para fora os estudantes irão comer, até mesmo em suas casas”, aponta.


Conforme a diretora, outros educandários pensam até mesmo em não realizar seus eventos de São João neste ano. “Vai ser muito difícil ter uma festa junina que resgate toda a tradição sem a parte gastronômica original ser mantida. Espero que o governador (estadual Ranolfo Vieira Júnior) tenha a humildade e reconheça que a festa é algo tradicional”, estima Janaína.

Cenoura cozida no lugar da salsicha no cachorro-quente nutritivo

De acordo com a diretora Janaína Venzon, a EEEM Ernesto Alves de Oliveira entende a necessidade de um cardápio saudável e equilibrado na alimentação das crianças e adolescentes. “Existe uma legislação que ampara a merenda escolar e nós a seguimos rigorosamente, mas este é um evento à parte”, reitera. “É tradicional a venda do cachorro-quente, do pastel, do bolo, nas tendas juninas. O ofício permite frutas, por exemplo, isso as pessoas não vão comprar em uma tenda.”


Janaína diz que as orientações descritas no ofício da Seduc se estendem também a outros eventos que venham a ser realizados nos educandários, como aniversários de alunos, festividades do município e festas temáticas. Nos arraiás de São João devem ser proibidos refrigerantes, alimentos industrializados, frituras, brigadeiro, beijinho, chocolates em geral, nega-maluca, cocada, rapadura e demais itens que levem leite condensado ou creme de leite em sua composição, e também condimentos como ketchup e mostarda.


Em contrapartida, foram autorizados canjica salgada e doce, polenta com molho de carne, pipoca salgada, bolo de milho, pinhão, pastéis assados, biscoito de polvilho, torta de bolacha e pão de queijo. O cachorro-quente nutritivo, como foi denominado o alimento que deve substituir o hot dog tradicional, feito com salsicha, porém, não agradou muito. “É um pão com cenoura cozida, milho, tomate, queijo mussarela e molho de tomate. Em nada tem a ver com um cachorro-quente”, opina Janaína.